A Insustentável Leveza do Ser – Por Carla Fagundes

“Um sobre o outro, eles cavalgavam juntos. Iam juntos em direção às distâncias desejadas. Atordoavam-se numa traição que os libertava. Franz cavalgava Sabrina e traía sua mulher, Sabrina cavalgava Franz e traía Franz.”

Este espetáculo de livro, eu li faz tempo, mas conheci muita gente que simplesmente leu duas e até três vezes. Reler um livro soa meio como um mito.  Há livros que simplesmente devem ser lidos mais de uma vez.

A obra-prima de Kundera — A Insustentável Leveza do Ser — além de visitar a cidade de Praga (invasão russa em Tchecoslováquia), tem-se a especialíssima companhia de personagens incríveis, e também de Nietzsche, Parmênides de Eléia, Sartre.  O mais maravilhoso: ter, vez por outra, o próprio escritor a fazer companhia ao leitor solitário, conduzindo-o  sabiamente pela filosofia, explicando a realidade sinistra de sua história, que se passa em 1968.

O livro foi publicado em 1984 e talvez muitos de vocês tenham assistido ao maravilhoso filme de Fhilip Kaufman, que levou o título de The

Capa da obra citada no texto da Professora Carla Fagundes.

Capa da obra citada no texto da Professora Carla Fagundes.

Unbearable Lightness Being. Trata-se de um romance aparentemente comum, contando a história de Tomas e Tereza e o cenário, o ano – 1968 – tudo contribui fantasticamente para surgir uma que é, sem dúvida, uma das maiores obras-primas de todos os tempos, no quesito literatura-filosófica-história-romance.

Kundera viveu a Primavera de Praga em 1968, um lampejo de otimismo na história da então Tchecoslováquia, à época dominada pela União Soviética. Este período, no entanto, durou meses. Esta transição é retratada claramente no livro, que se concentra nas consequências dessas mudanças para a vida dos personagens.

A contracapa e as sinopses desta obra dão a entender que se trata de um romance sobre dois casais. Ao longo do livro, porém, as personalidades de alguns personagens se sobressaem a de outros e conquistam mais espaço, merecendo análises mais prolongadas nas páginas de Kundera. Estas análises rendem excelentes perfis psicológicos dos personagens, sempre vinculados a discussões sobre abordagens distintas em relação à vida e ao amor.

Em regiões que vivem o caos diariamente, como era a Praga desta época, a política não é uma opção; passa a ser o ar que as pessoas respiram, já que determina o estado das coisas e o caminho por onde seguirão. Esta situação, retratada em obras como Persépolis ou Sarajevo, é a mesma em que vivem os personagens de A Insustentável Leveza do Ser. A política permeia suas vidas e interfere claramente em seus destinos, mesmo que os personagens pouco busquem-na ativamente.

Esta obra é permeada de potenciais citações, sobre assuntos diversos: Kundera utiliza a vida de seus personagens como plataforma para dissertar sobre o amor, sobre os relacionamentos humanos, a vida e a política. A base de seu raciocínio é o que dá nome ao livro: a existência humana carregaria ao mesmo tempo leveza (por acontecer apenas uma vez, não há como saber se outra decisão ou caminho teria sido melhor) e peso, já que toda decisão ou escolha é definitiva e não pode ser tomada novamente. Um conceito complexo, mas que se desenrola claramente nas páginas do livro.

O autor dá bom tratamento às suas personagens – mesmo que não concordemos com seus destinos –, inicia novas tramas no momento certo e concatena as histórias de forma interessante, alternando o foco narrativo em determinados fragmentos de capítulos através do ponto de vista dos diferentes personagens. Já suas metáforas talvez sejam excessivamente explicadas, tirando do leitor o esforço de interpretá-las e digeri-las. Entendo, contudo, que talvez para Kundera a Literatura tenha o propósito de servir também a uma posição filosófica. Assim, em alguns momentos, A Insustentável Leveza do Ser parece um esforço literário de um filósofo por natureza.

Uma espécie de prosa-musical-filosófica, o romance dosa igualmente as divagações subjetivas e  conflitos políticos, o ritmo e a música, fazendo de cada um instrumento de uma orquestra que toca o “concerto da vida”. A musicalidade do outrora músico Kundera dita o compasso narrativo, seu senso musical e a metáfora da vida como um concerto enchem as linhas de beleza e o “Es muß sein!” do Quarteto de Cordas n° 16 de Beethoven ressoa em nossa alma e destrói nosso kitsch intrínseco.

Carregar o leitor através dessa jornada existencial é desafiá-lo, é questionar suas forças, mas sabemos que muitos leitores aceitaram o desafio e mergulharam no universo de Tereza, Sabina e Tomas.

A Insustentável Leveza do Ser é um clássico que faz jus ao nome. Um livro complexo, requer atenção; mas recompensa bem aos que estão dispostos a mergulhar em seu universo.Para José Bruno Aparecido da Silva ,  com toda a admiração que uma professora possa ter por um aluno.

Boa leitura!

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