“A minha alegria atravessou o mar”
Por Carla Fagundes

Hoje a coluna não vai falar de livros.  A dor de perder uma amiga de infância por uma bala perdida elimina qualquer veia literária.  Fica a saudade, os casos, os outros amigos feitos ao longo da vida.

Como escreve Frederico Menezes: “saudade é algo que ainda comporta muitos caminhos para defini-la. Uns dizem que é a solidão acompanhada pelas lembranças; outros podem dizer que saudade é o amor não se foi, embora o ser amado possa ter ido. Na feliz definição do nosso Chico Xavier, esta é a falta que nos faz o magnetismo do outro… mas existem, ainda, definições engraçadas. Já escutei o desespero de uma pessoa martirizada pela dor da ausência de sua querida e que, lastimando o que sentia, pois sofria muito, esbravejava “adjetivos” estranhos sobre a amada. Chamava-a de “triste, miserável, porta de pecado, etc”, e caía no choro. Saudade é saudade, e pronto.

+ Mirtes Fernandes. Foto: Reprodução Facebook

+ Mirtes Fernandes. Foto: Reprodução Facebook

Conheci Mirtes Fernandes quando me mudei para o bairro Jardim Glória. Eu tinha dez anos e a conheci ali. Como o bairro tinha muitas crianças, a esquina da Avenida Santos Dumont com a Rua Farmacêutica Mário Azevedo, era o ponto de encontro para os papos e brincadeiras. Tínhamos um campo de futebol inteiro para brincar onde hoje é o Hotel Sem Remo e todo o comércio em torno.

Mirtes era a alegria , a sinceridade a toda prova e o bom humor. A última vez que encontramos foi em uma lanchonete da cidade e à medida que a conversava fluía, íamos lembrando os amigos que cresceram juntos e se espalharam pelo mundo.  Naquela noite, viemos juntas para o bairro e a conversa foi longa e entremeada de risadas.

Tinha uma característica interessante. De vez em quando visitava os idosos do bairro e contava casos e casos com eles. Sempre fez isso, fosse com os pais dos amigos ou com os vizinhos. Levava alegria e conforto a eles.

A imortalidade representa, para os espiritistas e espiritualistas das mais variadas escolas, a certeza de que não há saudade que não seja saciada às portas do tempo. O afeto que nos aguarda no mundo dos espíritos, um dia, nos aconchegará, novamente, de encontro ao seu coração. Os beijos se repetirão e o olhar doce que não esquecemos o mesmo olhar de quando estavam aqui no mundo, novamente derramará sua luz e ternura sobre nossa alma. No que tange à vida perene, imortal, saudade é, simplesmente, a ante sala de uma grande felicidade proporcionada pelo reencontro. A certeza de que ninguém morre e que o amor é a senha para que a saudade desapareça, um dia, é o supremo alimento das almas afins, dos corações imantados pelo amor.

A saudade, para quem crê, brada bem alto, para pais e mães, esposos e irmãos, amigos e conhecidos, que a separação não é eterna, ao contrário, a união é o fanal, o porto onde todos aportaremos, um dia. Ela diz: tenham paciência e esperem com olhos confiantes postos no amanhã que logo, logo chega. Aguardem produzindo o bem, o melhor para a humanidade. O magnetismo que lhes falta, retornará, preenchendo de vida, e vida em abundância, os corações que se amam.

E aí me lembro de uma crônica de Marta Medeiros. Ela diz que uma pessoa é eterna enquanto quem conviveu com ela, lembrar-se dela. Mirtes, com certeza, com sua luz vive eterna em nossos corações. “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

Para os amigos do Jardim Glória que já se foram Zé Pintinha, Eduardo Porto e Fernando Girardi.

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