A pequena grande LÍVIA e sua imensurável lição de vida
Reportagem: Vanessa Santos | Fotos: Pedro Roque Fotografia

“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”. E cativar significa criar laços. Acho que eu criei um laço silencioso com ela. Ela que trocou poucas palavras comigo, mas falava o tempo todo com os olhos, com o sorriso. Com um jeitinho todo particular. E o mais incrível é como uma criança de 7 anos conseguiu me ensinar mais sobre a vida do que os melhores livros que li ou as palestras mais conceituadas que já presenciei. Em uma entrevista de pouco mais de uma hora e meia, Geisa, seu marido, Valdinei e a sobrinha Michelly gentilmente me receberam para contar a história da pequena grande Lívia.

Filha única, Lívia Januário Cruz Pereira foi muito esperada pelos pais. Uma criança alegre e extremamente ativa que não demonstrava nenhum sinal atípico. Era fevereiro de 2017 e ela havia realizado exames de rotina há pouco tempo, no entanto, a mãe, Geisa Januário Cruz Pereira de 36 anos, nunca havia feito preventivo e resolveu se consultar no Programa Saúde da Família – PSF de seu bairro, mas durante o atendimento, a médica cubana Dra. Estrela não parava de olhar para Lívia. “Estou achando a sua menininha muito pálida, vou pedir um exame de sangue para ela”, disse a profissional.

No outro dia, ao retornar ao posto de saúde, Geisa foi surpreendida pela médica logo na entrada: “ligaram do hospital falando que houve uma alteração no exame da sua filha”, disse a doutora. Surpresa, a mãe entrou em contato com Valdinei pedindo que pegasse os resultados imediatamente. Na análise constava uma taxa de leucócitos extremamente alta, embora a criança não apresentasse nenhum sintoma.

O médico da Lívia, Dr. Carlos Alberto Coelli, chegou à cidade à noite e assim que conseguiu atender a família, recomendou internação. “Vou pedir a vocês para tirá-la de Ubá e amanhã um hematologista da minha confiança vai confirmar o que realmente é”, disse o profissional. Repetiram-se os exames e quando o especialista deu a notícia, Lívia manchou o corpo inteiro de roxo e começou a apresentar os sinais. O diagnóstico era de Leucemia Linfoide Aguda – LLA Tipo B, uma espécie de câncer mais comum durante a infância e que avança de maneira rápida, sendo fundamental o diagnóstico precoce. A partir daí os pais comunicaram aos familiares, que até então não sabiam da situação, e deram entrada aos procedimentos para encaminhar a filha para a Fundação Cristiano Varella em Muriaé.

“Foi uma loucura, todo mundo se mobilizou querendo ajudar. Quando chegamos na Fundação, o médico nos disse que era um caso avançado, mas havia 85% de chance de cura. Então começou o tratamento e as coisas que eu presenciava no hospital foram acontecendo aos poucos, inclusive a queda de cabelo. Eu não penteava o cabelo da minha filha porque tinha medo dele cair”, disse Geisa, que foi surpreendida pela atitude da Lívia. Após lavar a cabeça, a menina começou a tirar o próprio cabelo com as mãos e fez questão de filmar o momento. “Por que você está chorando mãe?”, questionava durante o vídeo. “Agora vamos dar uma volta no hospital porque quero que todo mundo me veja careca”, disse sorrindo.

Os dois primeiros meses foram bem sucedidos, mas à medida que a quimioterapia foi se intensificando, Lívia desenvolveu a chamada Síndrome da Lise Tumoral – SLT, caracterizada por uma complicação em decorrência do tratamento. “Ela apresentou uma reação ao remédio e foi internada na UTI em um quadro delicado”, conta a mãe. “Lembro-me perfeitamente do médico dizendo ‘sua filha teve trombose na cabeça, quando um coágulo de sangue entope uma das artérias do cérebro, e se ela sobreviver não vai andar, não vai falar e nem enxergar’. Eu fiquei doida! Ajoelhei e pedi a Deus que não deixasse isso acontecer, pois ela ia ficar cega, muda e surda pra medicina, pra fé não”, relata Geisa, que prometeu não abrir mais o olho da filha que estava com um risco branco, certa de que Deus a curaria no tempo dEle.

A partir daí a menina começou a apresentar pequenos sinais de melhora. O efeito da quimio, que deu origem as reações, foi amenizando e ela foi submetida à cirurgia de traqueostomia, uma espécie de buraco na garganta que permite a passagem de ar*, o que deu a Lívia condições de ser desentubada. Já no quarto, Geisa começou a mostrar as cores para a menina. Conforme ela respondia acenando com a cabeça, a moça percebeu que sua pequena estava enxergando. “Minha filha é um milagre! Eu me lembro quando o médico chegou perto dela e sorriu, era difícil ele abrir um sorriso. Se a criança está bem ele fica feliz, mas se ela tiver mal, ele muda totalmente”, conta o pai, Valdinei.

Hoje o tratamento encontra-se na fase de remissão, conhecida entre os especialistas como a “primeira etapa de vitória contra a doença”, em que ela se encontra inativa. Lívia vai ao hospital uma vez na semana para fazer a quimioterapia e em breve será feito apenas um acompanhamento que durará cerca de 5 anos, tempo considerado como “diagnóstico de cura”.

“A doença tem o lado ruim do sofrimento, mas é possível aprender com ela. Minha filha hoje é uma criança muito melhor, mais inteligente, mais esperta e carinhosa. E eu também mudei, aprendi a dar valor as coisas simples. Essa felicidade que sinto hoje eu devo a Lívia, se ela está conosco é porque Deus permitiu. Os médicos olham pra gente no corredor do hospital e balançam a cabeça, porque não da para acreditar… Deus foi muito generoso comigo desde o começo, só tenho a agradecer a Ele e aos anjos que Ele colocou ao meu redor, especialmente o Dr. Mauricio Drumond Alves, a equipe da Fundação Cristiano Varella, meus familiares e cada um que ajudou da maneira que pôde”, agradece a mãe.

Maior animadora da Fundação Cristiano Varella, é possível encontrar vários vídeos dessa guerreirinha na internet, seja dançando funk ou cantando as músicas de Marília Mendonça. Lívia é fã da cantora e inclusive teve a oportunidade de conhecê-la quando a artista veio se apresentar em Ubá. A menina que está sempre sorrindo, disse que há um segredo para nunca chorar durante o tratamento; “é só segurar a dor”, afirmou, se agigantando diante da situação.

Encerro essa desafiadora matéria ao som de Somewhere Only We Know (Algum lugar que só nós conhecemos), trilha sonora de O Pequeno Príncipe, afinal, Lívia se tornou minha verdadeira princesa! Os ensinamentos que o eterno principezinho conta em sua história são como as lições que aprendi com ela, que me trouxe à luz a graça que é viver; respirar sem precisar de nada além da fé. Enquanto escrevo, a entrevistada acaba de me enviar uma mensagem dizendo “tia Vanessa, te amo” e ainda garante que irá ensinar essa desajeitada jornalista a dançar. Mal sabe ela que já me ensinou muito mais que isso. Lívia me trouxe um caloroso abraço e um novo olhar sobre a vida. Eu te desejo o mundo, minha pequena grande menina!

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