“A vida é tão RARA”
A entrevista que me fez repensar minha própria história

Por Vanessa Santos

Fotos: Revista Fato

 

Das coisas que aprendi na faculdade, uma das principais é que o jornalista deve se preocupar em transmitir informação, e não sua opinião. Poucas vezes nos é “permitido” dizer o que pensamos ou esboçar sentimentos, apesar de trabalharmos sempre com o coração. Ocorre que somos humanos, e fatalmente a emoção pode falar mais alto, assim como falou pra mim. O amor desta história me envolveu, me comoveu. É por isso que peço licença a você, leitor, para quebrar os protocolos do Jornalismo e revelar o que a matéria a seguir mudou aqui do lado de dentro.

Volta e meia reclamamos da vida. É o namoro que não foi pra frente, a grana que está curta. O almoço que não está do nosso agrado ou a TPM que veio com tudo. E enquanto nos queixamos incessantemente por razões banais, esta ingênua criança só sabe sorrir. Naiane Vitória Pereira da Silva tem 6 anos de idade. Não anda, não fala, as mãos pouco se movimentam e as refeições são feitas através da sonda. O oxigênio também vem por meio de tubos, mais precisamente, através do Bipap, um respirador mecânico.

A pequena Naiane Vitória recebendo o carinho da mamãe Elzi durante entrevista realizada pela Revista Fato.

As complicações começaram logo no parto, ela veio ao mundo prematura. Após 7 meses e 23 dias de gravidez, a mãe, Elzi Pereira Borges da Silva, levou um susto e o bebê parou de se mexer, então a gestante encaminhou-se rapidamente ao médico. Ele disse que não podia realizar a cesárea, pois o neném – que segundo o cirurgião, era do sexo masculino – estava muito miúdo e com as pernas para cima. No entanto, a bolsa rompeu e a mãe não podia esperar mais. A família conseguiu dinheiro emprestado e o obstetra decidiu tirar a criança. O bebê, que na verdade era menina – ao contrário do que dizia o médico – sofreu uma apneia e ficou cerca de 40 minutos sem respirar.

Nascida em Lajinha – município com poucos recursos – Naiane foi transferida para Ubá e na semana seguinte de internação adquiriu meningite bacteriana na UTI, quando começou a ter paradas cardíacas. A mãe, que não pode vir na ambulância com a filha uma vez que estava recém operada, vinha a Cidade Carinho aos poucos, devido às dificuldades para realizar o deslocamento. No entanto, ao se deparar com o seu próprio neném no isolamento hospitalar, ela decidiu que não retornaria mais para Lajinha.

“Peguei os dez reais que tinha, coloquei crédito e entrei em contato com minha irmã que morava no Espírito Santo pedindo ligasse para o celular do meu marido, José Renato – que por sua vez estava em Minas Gerais – avisando que eu não voltaria para casa” – conta a mãe.

A partir daí, ele também decidiu mudar-se para Ubá. Uma TV, um botijão de gás, pouco dinheiro emprestado e algumas mudas de roupas era o que eles tinham. No entanto, muito além disso, essa

Dona Elzi ao lado da fisioterapeuta que realiza o acompanhamento de Naine em domicílio.

família era dotada de uma força admirável, uma vontade incessante de lutar pela vida.

E foram nessas circunstâncias que a Cidade Carinho os acolheu. Desde então, vários problemas surgiram e a garotinha já passou por onze cirurgias. Ficou em coma consideráveis vezes e os médicos diziam a Dona Elzi que a pequena não iria resistir, que não tinha mais jeito. Mas a fé resolveu contrariar a ciência e permitiu a essa criança a chance de continuar vivendo.

“Minha filha estava em coma e havia pegado infecção generalizada. ‘Ela não vai nem até três horas. Não tem medicamento mais pra ela. Não tem jeito mais’. Foi tudo o que a médica me disse. Engoli o choro, corri na recepção e liguei pra uma moça em Belo Horizonte que havia orado pela Naiane anos atrás. Ela atendeu e disse ‘querida, na Terra não tem mais antibiótico, mas cadê o seu Deus?’ Naquele momento, eu me fiz forte, corri no quarto e disse a minha pequena. ‘O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã’. No dia seguinte, minha filha apresentou uma melhora considerável. Quando ela acordou os médicos disseram ‘essa aí tem vontade de viver mesmo, ela morre e volta’!” – relata emocionada.

Passado o susto, a garotinha segue em casa, inquieta em sua cama. Só sai de ambulância e teve que parar de frenquentar a APAE – local que tanto amava – em virtude da submissão ao aparelho de oxigênio. Ela recebe a visita da fisioterapeuta duas vezes por semana, entretanto, ainda precisa de fonoaudióloga e pediatra, profissionais cujo SUS demora a disponibilizar.

Os remédios também estão em falta, e o pai, José, recorre constantemente a Justiça para conseguir alguns recursos. Naiane precisa de água de injeção, Luvital, Mucilon, lencinho, fralda e seringas variadas. Mas o sonho de Elzi é conseguir uma vaga para sua menina na Associação de Apoio a Criança Deficiente – AACD, onde há mais recursos para o bem-estar e o tratamento da filha.

A mãe se emociona ao dizer o quanto sua vida mudou: “eu trabalhava na roça, vim embora e meus filhos ficaram lá. Depois que a Naiane nasceu, sou só eu, ela e Deus; deixei minha vida toda pra trás para podermos ficar juntas. O meu medo de perdê-la é tanto que eu nem estou vivendo mais… Se ela passa mal eu fico mais mal ainda. Só essa pequena que me entende, me da carinho, eu brinco com ela é meu pão de mel… É um sentimento tão grande que nem sei explicar”.

O mais impressionante em toda essa história é a força que essa criança tão amada tem de lutar, ela parece incansável! Durante a entrevista, a sapeca não parava de sorrir nenhum minuto. Embora impossibilitada de conversar, ela falava com os olhos, com os gestos de carinho, com sua própria inquietação e o desejo de ficar de pé.

Como diria Dona Elzi, Naiane é de fato, “um pedacinho do céu na Terra”. Um anjo no meio de nós. Um anjo que me desafiou a fazer a matéria mais difícil de toda a minha trajetória profissional. Um anjo que me ensinou um tanto. Hoje aprendi que a felicidade é relativa e que os problemas são proporcionais a maneira como nós os encaramos. Passei a entender que a saúde do corpo é importante, mas não transcende a saúde da alma. A verdade é que eu vi mais do que as palavras podem explicar. Desde esse dia, aprendi que não há nada mais precioso na vida do que a própria vontade de vivê-la.

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