As múltiplas faces da maternidade
“(…) A Maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado, e a mãe continua, no nosso inconsciente coletivo, a ser identificada com Maria, símbolo do indefectível amor-dedicação.”

A concepção de maternidade, que permeia o imaginário social, está diretamente relacionada aos termos nascimento, alegria, começo e vida. Entretanto, existem situações em que ocorrem intercorrências no ciclo gravídico puerperal, o que se contrapõe a essa imagem social da maternidade. Paradoxalmente, a morte é um evento que ocorre mais frequentemente na maternidade do que gostaríamos de supor.

O aborto espontâneo é o fim acidental de uma gravidez em gestação. Suas causas são diversas, podendo ser orgânicas ou até emocionais. Mas, independentemente da causa, a vivência do aborto em si traz sofrimento intenso para a mãe e o pai. Depois de enfrentar isso, muitas mulheres sentem dificuldade de seguir em frente e planejar outra gravidez. A morte de um filho antes ou logo depois do nascimento rompe com a ordem natural da vida, assim como interrompe os sonhos, as esperanças, as expectativas e as esperas existenciais que normalmente são depositadas na criança que virá. Nas palavras de Torloni: “a morte de um feto é a morte de um sonho”.

Apesar do assunto ser um tabu e pouco se falar sobre isso, o aborto espontâneo é uma intercorrência comum, que atinge de 10% a 25% das mulheres em gestação. Então, esconder a questão e evitar a todo custo falar sobre ela – atitude que muitas famílias tomam por acharem que essa é uma forma de proteger a mulher – não é o melhor caminho. Ao não se sentir incentivada a expressar seu sofrimento e se lamentar, ela acaba não entrando tanto em contato com os sentimentos de tristeza e de impotência, vendo-se obrigada a seguir a vida e a planejar outros filhos. Quando essa postura de se entristecer é negada, é difícil que a mulher siga em frente de forma realmente saudável.

Entretanto, o processo de luto precisa ter início, meio e fim. Não existe um tempo determinado para acontecer, pois cada mulher irá lidar com isso de forma diferente, mas quando esse período passa a influenciar de forma muito negativa e paralisadora, sem que haja mudanças na maneira de enfrentar a perda, acontece o que chamamos de ‘luto patológico’ e é aí que precisamos buscar ajuda profissional.

Por todos os motivos, a compaixão dos familiares e dos amigos mais próximos é essencial também para o homem, que precisa lidar com a tristeza pela perda do bebê e ainda com a dor da mulher – que demanda todo apoio possível. Porém, mais uma vez, vale lembrar que é preciso muita delicadeza para tratar do assunto. É importante que as pessoas próximas a ela sejam empáticas e acolhedoras, buscando compreender a tristeza sem julgá-la ou impedi-la de sofrer por essa perda. Então, nada de tratar o aborto como algo menor ou de pouca importância, que pode ser superado com uma viagem de férias ou com o planejamento de outra gravidez.

ENTRE NA REDE FATO!