ATÉ QUANDO? Apesar das discussões, preconceito velado ainda assombra a sociedade
Por Vanessa Santos

De acordo com o IBGE, os negros compõem a maior parte da população brasileira (53,6%), no entanto, segundo pesquisas, eles ainda recebem salários inferiores e ocupam menos carteiras nas universidades em relação aos brancos. Prestes a comemorar o Dia da Consciência Negra, parece que ainda temos muito que aprender. Recentemente foi divulgado um vídeo cujo jornalista William Waack tece comentários racistas nos bastidores do Jornal da Globo. Diante do ruído de buzina no trânsito, o âncora pondera ironicamente: “Deve ser um… Não vou nem falar quem é. Sabe quem é, né?”, Waack pergunta ao entrevistado, Paulo Sotero. “É preto… É coisa de preto mesmo, né?”, insiste com um ar de deboche.

 

Giane Elisa Sales de Almeida, 42 anos, Pedagoga. Foto: Arquivo Pessoal.

Embora tenha sido afastado da emissora, fica nítido o comentário racista que na prática teria ficado “detrás das câmeras”. E a história se repete diariamente. O preconceito velado ocorre na fila do banco, quando os seguranças travam a passagem de negros, nas boates elitizadas cuja entrada de negros se restringe a famosos e jogadores de futebol, e sobretudo na periferia, quando a polícia age com violência para revistar um jovem inocente, “mas” negro.

Kelly da Silva conhece bem essa realidade. De origem humilde e filha de mãe solteira, ela teve que começar a trabalhar como doméstica aos 10 anos, atividade que exerceu até os 21, quando saiu em busca do seu sonho. “Em novembro de 2002 pedi férias a minha patroa a fim de que eu pudesse me dedicar ao vestibular que ocorreria em 30 dias e ela me disse as seguintes palavras: ‘mesma sendo de classe média e tendo estudado em escola particular eu não consegui entrar em uma Universidade Federal, isso não é para você. Se um dia quiser fazer faculdade, junte dinheiro e quando tiver uma boa grana, já bem mais velha, pague uma só para ter um diploma’. Isso foi o suficiente para que eu pedisse a minha demissão”, conta a moça.

A partir daí ela começou a produzir doces e salgados para vender visando poder estudar no restante do tempo. A jovem e se dedicou e foi aprovada em dois cursos: psicologia na Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ) e pedagogia na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Por ser um local mais acessível financeir

Pedro Raymundo, 63 anos, Advogado. Foto: Arquivo Pessoal.

amente, Viçosa foi a escolha feita por Kelly e desde então um novo mundo se abriu para a estudante. Após destacar-se como excelente aluna na graduação, ela concluiu o mestrado e hoje é professora efetiva na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) do campus de Ubá. “Minha seleção se deu por profissionais íntegros, que não analisaram minha cor antes do meu currículo e formação acadêmica, pois conheço várias histórias de pessoas em diferentes áreas que não entraram no mercado de trabalho por serem negras”, afirma.

 

Kelly da Silva, 36 anos, Pedagoga. Foto: Arquivo Pessoal.

Atualmente na direção da UEMG, ela revela que já sofreu discriminação por conta da relevância de seu cargo, mas sempre procura a educação e o debate como forma de contornar esse desafio. “Eu seria irônica em dizer que não me deparo com preconceito por ocupar o posto de maior prestigio na unidade, algumas pessoas não aprovam ser eu a diretora e um dos motivos é sem dúvidas o preconceito racial, às vezes sutilmente velado, às vezes escancarado. Como faço doutorado e discuto entre outros temas as questões de gênero e raça, minhas experiências não são diferentes da maioria dos sujeitos negros nesse país que alcançam patamares incomuns à nossa cor, nos rejeitam simplesmente porque esse não seria no imaginário racista dessas pessoas o nosso lugar”, diz.

“Eu reajo denunciando as práticas preconceituosas nos debates na instituição, com palestras, minicursos e trabalhando para que demais negros tenham acesso a educação, cultura e ciência no mesmo patamar que as pessoas brancas. Reconhecendo o momento atual do país como de ascensão de uma mentalidade conservadora que, em nome dos bons costumes e de um modelo de família tradicional, vem trabalhando para retroagirmos em poucos dos avançamos que obtivemos socialmente, acredito que a educação seja um dos grandes pilares de mudança social, não só acredito como busco através de diversas atividades apresentar às escolas possibilidades de atuarmos em temáticas tão importantes como as de gênero, raça, etc”, completa Kelly que aos 36 anos é Doutoranda em Educação na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Outro grande profissional e orgulhoso de sua cor, o advogado Pedro Raymundo também chegou a enfrentar várias adversidades em seu campo de atuação, sendo algumas, inclusive, casos de racismo escancarado. “Em certos incidentes a discriminação não foi velada, foi explícita mesmo. Foi comentado por um diretor, em plena reunião da empresa, que eu o fazia lembrar os negrinhos carregadores de caixa na área de comercialização. A frase dita como despretensiosa, tinha endereço e propósito certos. Na execução do trabalho, me divertia com a surpresa das pessoas que vinham tratar com o gerente e deparavam com um negro como interlocutor. Custavam a se recompor do susto! No geral, me sentia fragilizado, impotente. Mas isso me impulsionou a encarar os estudos para o concurso do Banco do Brasil, cuja aprovação mudou minha vida”, relata.

O advogado de 63 anos acredita que a mudança desse contexto começa na autorresponsabilidade de quem age de maneira preconceituosa: “muitas ações precisam ser implementadas para que possamos viver num mundo de pluralidade ética, racial e social. O rol de atividades é extenso, mas eu coloco como uma das mais fundamentais o trabalho no sentido de banir o inconsciente coletivo ligado à discriminação social. Nesse sentido existe uma curiosidade: todos admitem que o preconceito existe, mas ninguém admite ser preconceituoso. E, por causa dessa camuflagem, o comportamento preconceituoso permanece, permeia a nossa cultura, esconde-se sob as mais diversas artimanhas, mas aparece quando se descuida ao controle consciente de combate a esse tipo de atitude. Atitude que é sutil para o opressor, mas terrivelmente lesiva para o oprimido”.

Já a militante das questões raciais Giane Elisa Sales de Almeida transcende a concepção da luta contra o preconceito. Também conhecida como “Gata Preta” – pois segundo ela, “ser preta é sua melhor definição” junto à habilidade de observância e esperteza similar a dos felinos – a moça acredita que a discriminação não está oculta, mas segue as claras para quem se encoraja a enxergá-la. “Esse comportamento só é velado para quem não quer ver. Ele é a todo momento. No Brasil vivemos um genocídio dirigido à população jovem negra que é bem escancarado e fruto do racismo institucional presente em todo o Estado brasileiro. Não acredito que o racismo tenha diminuído. Acredito que as pessoas hoje falam mais abertamente sobre ele, o que antes não acontecia”, aponta.

A pedagoga e funcionária da Secretaria de Desenvolvimento Social de Juiz de Fora defende que a reversão desse quadro inclui de maneira indispensável subsídios governamentais, principalmente nas áreas que se encontram mais fragilizadas: “o racismo só perderá força com reparação. E reparação quer dizer políticas públicas, investimentos, aporte financeiro. Não há como esperar que o enfrentamento se dê de maneira localizada e individual. Então estamos falando de ações afirmativas não só na universidade, mas também nos programas de assistência social, de moradia, de lazer, de cultura, de esportes. Estamos falando em aportes financeiros que se dirijam às áreas periféricas onde está a maior parte da população negra totalmente abandonada pelos governos. É preciso que as pessoas tenham oportunidades! E oportunidade está no campo do trabalho e da geração de renda, mas também no campo da produção do belo, da arte, dos esportes. ‘A gente não quer só comida’, precisamos saciar a fome de pão e de beleza”.

A partir de todas essas histórias e parafraseando Luther King em “I Have A Dream”, peço licença para dizer-lhe que “eu tenho um sonho, eu ainda tenho um sonho”. Sonho que as pessoas se respeitem e consigam enxergar além do que olhos podem ver. Com os olhos da alma. Porque o espelho reflete o que tempo certamente irá apagar. Mas aquilo que fizemos ficará marcado, atravessando gerações. Então, deixe um legado de amor para o mundo. E comece fazendo isso multiplicando o sentimento de que somos todos iguais. Assim poderemos dividir a mesma mesa, frequentar os mesmos lugares e viver em harmonia. Afinal, a cor da minha pele carrega uma história, mas não diz nada sobre aquilo que eu sou. E o que somos é tudo o que verdadeiramente importa.

 

 

 

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