…”brincadeira de criança”… – Por Gilberto Torres
Nica Bomfim, Anderson Thives e Gilberto Torres. Foto: Arquivo Pessoal.

Nica Bomfim, Anderson Thives e Gilberto Torres. Foto: Arquivo Pessoal.

Quando participamos das redes sociais acreditamos ter muitos amigos à nossa volta e sermos populares. Estarmos ligados a todos os acontecimentos e participamos efetivamente de tudo. Isso é uma verdade, mas também uma ilusão, porque essas conexões são superficiais e instáveis.

Os contatos se formam e se desfazem com imensa rapidez. Além disso, as relações cultivadas nas redes sociais se baseiam na virtualidade, portanto, no distanciamento físico entre as pessoas. Uma das minhas preocupações sobre o envolvimento humano com as redes sociais é não perder de vista o entendimento de que o contato virtual jamais deve substituir as relações pessoais diretas, o abraço amigo e fraterno, o olho no olho, o aperto de mão, dividir pessoalmente as alegrias e angústias do dia-a-dia. As relações começam e são destruídas por um toque.

Pensando em tudo isso, procuro não perder a oportunidade de estar num convívio mais estreito com amigos onde posso dar e receber mais que longas conversas pelo whatsap , SMS ou facebook.

Num desses encontros deliciosos, em casa de amigos, conheci Anderson Thives, um artista plástico que desenvolve um trabalho utilizando a técnica da colagem. Passei a acompanhar seu trabalho e recentemente fui à inauguração da sua última mostra aproveitando para trazer um pouco desse universo para vocês.

“Dez colados” – dez releituras de obras célebres, como a Monalisa de Da Vinci, O Grito de Edvard Munch, A Vênus de Botticelli, entre outras, que originalmente foram retratadas em plano americano, através de sua técnica de colagem, na qual utiliza milhares de quadrados de papel de revista para criar suas obras. Thives dá a essas releituras, um corpo em tamanho natural, como se as mesmas estivessem “descoladas” de suas obras originais. Justificando assim, o título de sua mostra.

O interesse pela ideia da devoção do público às celebridades e, até mesmo, aos santos, como um símbolo cultural de sua época, é visível na arte exclusiva de Thives. Na primeira exposição, ele recria de forma verossímil imagens de suas celebridades preferidas, como Elvis Presley e Marilyn Monroe.

Já em “Santo Forte”, outra exposição, os santos populares ganham nova roupagem, retratados de forma mais humana e, em certos casos, até

Pantera Cor de Rosa - uma das obras de Thives.

Pantera Cor de Rosa – uma das obras de Thives.

usando de uma sensualidade não implícita, porém, com um simbolismo de fé, que transcende a escolha da imagem, das cores, jogo de luzes e sombras. Procurar, cortar, colar, juntar… Os temas são inúmeros e findáveis… Passei a ser mais um admirador do trabalho de Thives (ainda terei uma obra dele em casa).

 Thives trabalha com uma das maiores galerias da Europa, que é uma “distribuidora” de galerias, para onde vão seus trabalhos e de lá para o resto do mundo, fazendo com que seu trabalho seja mais valorizado lá fora.

Madona é uma das tantas celebridades que possui uma obra do artista.

Esse trabalho genial faz lembrar brincadeira de criança: tesoura, papel e cola! E como ele mesmo diz – “Sendo mais direto, acho a forma da colagem mais atraente e ao mesmo tempo um trabalho que se forma através de uma brincadeira séria. Não é a toa que nos remete as lembranças de infância. Gosto muito do fato de reconstruir formas já pré-existentes e dessa forma, a colagem, para mim, além de trabalho é sim, uma grande brincadeira”.

Parece simples, mas é um trabalho extremamente elaborado e de uma sensibilidade incrível.

Aproveitando que outubro é o mês das crianças, segue aí um passo a passo de Thives para elaboração da sua arte:

Primeiro passo: Começar pela escolha das cores. Muitas revistas e papéis são a base… Se precisa de um fundo azul de céu, busca propagandas e imagens que contenham essa cor e algumas cores são bem difíceis de se achar. Não é como tinta, que mistura dali, pega daqui e o tom aparece. Com o papel é diferente. Ele tem de trabalhar com o que encontra, não pode inventar cores. Já o segundo passo é cortar os quadradinhos, que, algumas vezes, chegam a ter menos de um centímetro. Não há regra. Régua, estilete e tesoura entram nesta etapa. E… terceiro e último: colar o que a imaginação permitir. Ele não costumo fazer esboços, cola seguindo a intuição. Esboços atrapalham e confundem.

Parece difícil? Fácil? Sei lá. É um misto dos dois.

Vamos lá crianças! Parabéns Anderson Thives! Feliz mês de outubro!

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