Célia e Celma Mazzei
As ubaenses a frente de seu tempo

Por Natália Meireles

Fotos: Arquivo Pessoal

 

Célia e Celma atuaram na década de 90 como atrizes na novela Ana Raio e Zé Trovão.

Cantoras consagradas, Célia e Celma vieram para mostrar que mesmo sendo naturais do interior, era possível ganhar o mundo. Filhas de Celidonio e Gioconda Mazzei, cresceram com mais 10

irmãos. “Família muito numerosa, sem posses, mas como ‘una vera famiglia italiana’, ruidosa e festiva. As inesquecíveis lembranças vêm da honestidade de nossos pais, do esforço

para educar aquela tropa, trabalhando sem cessar e sem reclamar. Papai era fotógrafo, com sua câmera e sua filmadora, registrava os momentos mais significativos de nossa cidade, enquanto mamãe se dividia entre as tarefas do lar e os pedais de sua máquina de costura. Uma lição de vida!”, recordam.

Foram criadas em um sobrado na Praça da Independência, onde brincavam livremente, como se fosse um grande quintal. “Naquela época era um lugar extremamente tranquilo. Podia-se sair às ruas sem preocupações de qualquer espécie. Brincávamos de pique, queimada, peteca, soltávamos papagaios, subíamos nas árvores da pracinha… Umas verdadeiras molecas!”, se divertem lembrando.

As irmãs Célia e Celma tiveram o prazer de atuarem ao lado da competente Leadra Leal, no filme, O Viajante, gravado em Ubá em 1998.

As molecas, ou melhor, irmãs, estudaram no Externato Brasileiro, no Grupo Escolar Camilo Soares e no Colégio Sacrè-Coeur de Marie, em Ubá. Mais tarde, já no Rio de Janeiro, frequentaram a Escola de Belas Artes e o Instituto Villa-Lobos. Durante anos participaram do Ballet Aquático da Cidade Carinho. Interagiam nas festinhas em casa de amigos, as chamadas “brincadeiras dançantes” e participavam também dos carnavais memoráveis, com blocos animados nas associações e nas ruas.

Inquietas, as gêmeas fundaram a lendária “Turma do Abacate” que alegrou salões dos clubes ubaenses e criou a tradicional “Noite do Mau Gosto”, festa que agitava a cidade. Os amigos reuniam-se sempre que possível para se divertir e passar o tempo. “Era uma delícia os encontros na piscina da Praça de Esportes, frequentar os bailes glamorosos dos clubes, as festas na zona rural, passear nas praças… Estávamos sempre presentes nas comemorações solenes de nossa paróquia e em suas quermesses, com leilões e sorteios”, comentam.

Conjunto Garotas, em Ubá. Foto: Geraldo Mazzei.

Por influência de uma das irmãs mais velhas, rádioatriz e locutora, Adélia, que as levou para a Educadora, as gêmeas puderam desenvolver o seu talento na rádio, onde deram os primeiros passos da carreira. “Lá atuamos em novelas infantis e cantamos ao vivo os jingles de anunciantes locais” – dizem, sendo o mais famoso deles, o comercial do refrigerante Abacatinho.

Desde então, a veia artística da dupla foi ganhando vida. “Já na adolescência, com alguns colegas de escola, criamos o ‘Conjunto Garotas’, vindo a nos profissionalizar depois”, explicam. O grupo tocou muitas vezes em clubes de Ubá e da região, levando-as depois ao Norte e Nordeste do Brasil e ao Rio de Janeiro – então Capital Federal –, sempre ampliando seu público, pois era uma excentricidade. “Acreditamos que foi o primeiro conjunto musical feminino do país. Precisamos pesquisar isso no Guinness Brasil” (Risos).

Célia e Celma chegaram a se formar em música no Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, em 1976 e lecionaram em algumas escolas. “Deixamos de viver em Ubá quando a vontade de seguir a carreira artística foi mais forte do que lecionar. Um escândalo na cidade! Duas moças de família partindo para o – mundo da perdição – no Rio de Janeiro. Esse era o pensamento da época. Mas enfrentamos tudo com coragem, não foi fácil, porém jamais

Divulgação do CD Canto com C, em 2017. Foto: Dinho Nunes.

nos arrependemos dessa escolha”, contam.

Atualmente, quando estão fazendo suas apresentações, se dividem entre São Paulo, Rio de Janeiro e Tóquio, no Japão. Elas também realizaram shows na Itália, terra das famílias Casarim e Mazzei, onde participaram de um disco, com a música Magica Passione. Cantaram em Paris, na Argentina, nos Estados Unidos, na China e um tempo maior no Japão, contudo são mais frequentes no Brasil.

Em 2013 estiveram no Santuário de Aparecida, onde o Papa esteve. “Éramos vários artistas: Elba Ramalho, Agnaldo Timóteo, Jair Rodrigues, Luciana Melo, os

Emílio Santiago ladeado pelas irmãs Célia e Celma no projeto Pixinguinha em 1985.

Padres cantores Alexandre e Antônio Maria, as Galvão. Fazia um frio intenso naquela noite. Dava pena ver aquela gente toda ao relento, sob uma chuva gelada e constante. Isso muito nos emocionou, a fé do povo, ninguém arredou pé dali. Mas, sem dúvida, a emoção maior foi ver o Papa a um metro de distância e receber sua bênção. Ele levou de presente nosso álbum – Lembrai-vos das procissões e devoções de Minas”, recordam com carinho.

Célia e Celma chegaram a atuar na televisão, com a novela Ana Raio e Zé Trovão fazendo participação como “Luminada e Luminosa”, trabalho que durou um ano. “Atuar é muito prazeroso e esse trabalho apareceu para nós como um presente do céu. O diretor Jayme Monjardim procurava nas produções dos programas de TV da época – anos 90 – por uma dupla de cantoras irmãs e todos foram unânimes em nos indicar”, contam. Fizeram presença também no filme O Viajante: “cantamos uma música de Ary Barroso, ‘a Tristeza dos Sinos’, descoberta por nós e gravada em nosso CD ‘Ary Mineiro’. Em cena, conosco, uma queridinha, a atriz Leandra Leal”, revelam.

Célia e Celma participaram do show em homenagem ao Papa Francisco durante sua vinda à Aparecida do Norte em 2013.

Além da novela e do filme, produziram, apresentaram e dirigiram o programa “Célia e Celma”, que foi

Show Ary Mineiro em Belo Horizonte (1997).

ao ar de 1998 até 2007. “Foi um convite-surpresa: dois diretores do Canal Rural nos viram em uma entrevista na TV e acharam que tínhamos jeito

para apresentar. O programa ficou quase 10 anos no ar, mostrando artistas da cultura popular brasileira e foi marcante em nossa trajetória, ainda hoje, uma década depois de ter acabado, nos sentimos órfãs, lamentando seu fim”, comentam.

Outra paixão das gêmeas, influenciada pela mãe, é a culinária. Foi um aprendizado natural, afinal as meninas acompanhavam Dona Gioconda a beira do fogão a lenha, preparando broas, torrando os grãos de café e fazendo a comida diária. Com isso elas começaram a desenvolver suas próprias receitas. “Lançamos nosso 1º livro de culinária em 1990, ‘A Cozinha Caipira de Célia e Celma”, contam. Depois disso, elas foram convidadas a participar de vários programas de TV. Inevitavelmente os apresentadores as pediam para cantar alguma música do repertório. Isso as inspirou a juntar as duas artes, a culinária e a música e daí transformaram as receitas em versos e canções. Mas só no segundo livro, lançado em 2006, “Do Jeitinho de Minas”, foi gravado o CD com as receitas cantadas. A dupla ainda cozinha sempre que estão em casa, principalmente Célia, por ser casada com o Jornalista e Historiador José Antonio Severo há 30 anos.

A dupla marcou presença no Programa Meu Cunhado, do SBT, em 2004. Quem compartilha a cena nesta foto é Ronald Golias.

Com diferenças marcantes, apesar de fisicamente serem idênticas e ter gênio forte, Célia é mais atualizada nas tecnologias e herdou o dom da costura de sua mãe.

Celma é mais “Zen”, como ela mesma se descreve, gosta da escrita. No entanto, ambas não perdem sua essência, a simplicidade, a honestidade, a

Célia e Celma aos 9 anos de idade. Foto: Celidonio Mazzei.

preocupação em tratar bem o semelhante, seja íntimo ou desconhecido. “Com projetos novos, saúde boa, academia e alimentação controlada para o físico, oração para o espírito, pensamentos positivos para a mente é como temos procurado viver”, afirmam.

Mesmo que pouco as cantoras visitam a Cidade Carinho, para reencontrar os familiares e amigos que ainda residem aqui. Sempre voltam cheias de bagagem, com aquele queijo que só os ubaenses fazem, a famosa mangada e outras delícias.

“Acreditamos que não vamos terminar nossos dias em São Paulo, mas enquanto tivermos voz, cabeça e pernas sadias, pretendemos continuar produzindo. O futuro é um mistério para todos nós e se um dia voltarmos para Ubá, teremos que nos readaptar a uma cidade que hoje difere um tanto daquele pequeno paraíso que nos viu nascer e dar os primeiros passos rumo à conquista de nossos sonhos”, encerram.

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