DEPRESSÃO INFANTIL: UM GRITO SILENCIOSO – Por Dr. José de Alencar Ribeiro Neto
Dr. José de Alencar é Médico Psiquiatra e Psiquiatra da Infância e Adolescência e colunista na Revista Fato, onde assina mensalmente a coluna: Valorize suas Curvas

Dr. José de Alencar é Médico Psiquiatra e Psiquiatra da Infância e Adolescência e colunista na Revista Fato, onde assina mensalmente a coluna: Valorize suas Curvas

Reconhecer e aceitar que seu filho possa ter um sofrimento mental é um grande desafio aos pais, principalmente transtornos que são silenciosos e de difícil diagnóstico na infância, mas que podem trazer graves consequências no processo de desenvolvimento das crianças e adolescentes. É o caso da depressão, uma síndrome caracterizada por alterações de humor,  psicomotricidade, comportamento, bem como por uma variedade de distúrbios somáticos e neurovegetativos. O transtorno depressivo maior acomete 2% das crianças pré-adolescentes, sendo igualmente a taxa entre meninos e meninas. Em adolescentes esse número sobe para 6% com uma razão de moças/rapazes de 2:1.

Ao examinar a criança, nem sempre encontramos sintomas que descrevam seu estado interno, pois geralmente elas não têm capacidade de identificar e descrever seus próprios sentimentos ou sintomas abstratos como tristeza e angústia, devido a seu desenvolvimento psíquico imaturo. Por isso a importância da família, profissionais da atenção básica e pediatras estarem atentos para identificar e encaminhar para uma avaliação especializada. Os sintomas podem ser sutis, como maior sensibilidade, choro fácil e irritabilidade. A mudança de comportamento de forma inexplicável, bemcomo crianças antes adequadas e adaptadas socialmente passando a apresentar condutas irritáveis, destrutivas e agressivas, com violação de regras anteriormente aceitas devem chamar a atenção para a possibilidade de um transtorno depressivo. Esse comportamento decorrente de humor irritável mostra-se um dos sintomas mais importantes para o diagnóstico, uma vez que, geralmente a criança é levada ao psiquiatra mais por suas condutas inadaptadas do que por seu próprio sofrimento. Já entre os adolescentes, observamos a sensação de infelicidade, mudanças de peso, alterações do padrão de sono, prejuízos na escola e, infelizmente, uma frequência maior de pensamento suicida.

Vale ressaltar que as depressões na infância são mal diagnosticadas ou mesmo passam despercebidas e uma avaliação adequada pode ser determinante para prevenir futuros prejuízos acadêmicos, sociais ou situações de risco. Quando há suspeita de transtorno depressivo em crianças e adolescentes, uma avaliação médica é de extrema importância, pois alguns diagnósticos diferenciais devem ser investigados como infecções, problemas neurológicos, endócrinos, uso de medicações que rebaixam o humor, além da possibilidade do uso de substâncias ilícitas (mais comum entre os adolescentes).

O tratamento deve ser bem planejado e conduzido por psicólogo e psiquiatra.  Nos casos mais leves a moderados se dá através de psicoterapia e psicoeducação (informar à família, ao paciente e à escola sobre o transtorno, formas de tratamento e prognóstico). O uso de medicação pode ser necessário e, quando há risco de suicídio, há necessidade de vigilância por parte dos pais. Um dos aspectos mais difíceis da psiquiatria é fazer perguntas desconfortáveis. Perguntar sobre suicídio é uma dessas situações. Contudo, esse questionamento deve fazer parte do repertório de perguntas a serem feitas a todas as crianças e adolescentes com suspeita de depressão. Isso pode salvar uma vida!

Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche “A depressão é um grito da alma, alertando que seu progresso natural está atrasado”. Portanto, ouçamos com atenção a voz abafada e silenciosa daqueles pequenos que gritam por nossa ajuda.

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