“Eu não gosto de futebol”

Quem foi que disse que todo homem é obrigado a ser fanático por futebol? Eu mesmo sou um exemplo de cara que não sente o menor apresso pela

Cláudio Travassos.

Cláudio Travassos.

modalidade. E olha que não foi por falta de tentativa, pois meu pai sempre me levou em seus jogos aos domingos e uma vez me colocou, por “livre e espontânea pressão”, numa dessas escolinhas de futebol quando eu ainda era criança. Sinceramente? Tudo serviu apenas para uma coisa: confirmar que, de fato, não curto futebol!

Entretanto, essa questão não envolve apenas a aceitação, por parte daqueles que não gostam, de que o futebol é o maior esporte no nosso país, o que vai sempre gerar conversas intermináveis, piadas, programas e atividades sociais, onde todos parecem gostar do tema, exceto os que sentem aversão pelo esporte. Mas também a aceitação alheia, pois mesmo que o tempo tenha passado e muitos costumes se transformado, a maioria das pessoas ainda estranham quando um homem diz que não gosta de futebol.

É como se precisássemos de um motivo incrivelmente plausível para explicar o que muitos consideram ser uma verdadeira barbaridade! Dizer apenas “não curto” é o mesmo que pedir para que as pessoas criem estereótipos sobre você beirando ao preconceito. “Quem não gosta de futebol é viado!”. Vai dizer que nunca escutou esta frase?

Gabriel Queirós.

Gabriel Queirós.

Contudo, saiba que nossa “espécie” não é tão rara quanto se imagina, mesmo tratando-se de brasileiros, filhos do país do futebol. O proprietário da CCAA Ubá, José Cláudio Travassos, é outro exemplo. Assim como eu, ele tentou praticar o esporte quando criança, mas não demonstrou a menor habilidade. “Me achava preguiçoso e não gostava de correr atrás da bola”, recorda. Para exemplificar seu desinteresse, ele conta: “Toda vez que me perguntam qual meu time, respondo ‘Flamengo’, só por que toda minha família é flamenguista. Mas não torço de verdade”.

José Cláudio fala que quando quer se atualizar sobre o mundo futebolístico o faz através de comentários dos amigos, mas sempre ficando de fora, apenas ouvindo, sem participar da discussão. Segundo ele, na infância era mais chato ter que explicar a situação para as pessoas, mas atualmente sente que é algo mais comum, pois existem outros homens que também não gostam e não se importam em dizer isso – estamos juntos nessa, José! “Porém, como nem tudo na vida podemos esclarecer, meu filho de 13 anos, Leonardo, é fanático por futebol e também torce pelo Flamengo – mas ele torce de verdade”, conta.

O locutor e produtor de áudio, Thiago Freitas, é outro que também não gosta de futebol. “Não vejo graça alguma em ver 22 homens suados, correndo atrás de uma bola para tentar acertá-la dentro de uma rede. É um esporte meio sem sal”, ele vai direto ao ponto. Na infância, mesmo sem gostar, ele até chegou a jogar com os colegas de classe, pois o futebol era obrigatório na grade de Educação Física. Mas seus esforços não valeram de nada: o desgosto só aumentou.

Para escapar da rodinha de amigos quando chegam neste ponto, Thiago possui várias táticas. “Às vezes eu só concordo, ou tento mudar de assunto.

Thiago Freitas.

Thiago Freitas.

Quando não consigo, o que é raro, começo a mexer no celular, ou vou ao banheiro”, explica. Ele diz que ainda não sofreu preconceito com esta situação, mas as pessoas geralmente fazem “cara de paisagem” quando ele abre o jogo. “Acho que cada um tem seu jeito de pensar, então é preciso ter respeito”, declara. Quando perguntamos se há algum time para o qual ele torça… “Bom, antes do 7×1 era a Seleção Brasileira…”, ele brinca.

Já o médico veterinário, Ricardo Silva, tem outro argumento para explicar seu dissabor quanto ao futebol. “Na verdade, eu até gosto do esporte. É um jogo interessante, exige muita habilidade e preparo físico. Mas o que não suporto são as atitudes dos torcedores, agindo como se isso fosse a coisa mais importante do mundo, gerando diversos conflitos”. De qualquer forma, ele conta que não tem o costume de jogar bola, mas também já o fez (“Muito mal, mas sim”), quando criança. Nas conversas com os amigos, se depender de Ricardo, o papo simplesmente não evolui.

“Dependendo da conversa e rumo que ela estiver tomando, não me importo de estar presente. É como qualquer outra conversa com assunto desinteressante que por vezes acabamos tendo. Mas como normalmente o assunto é sobre jogador tal, ou como está determinado time, nunca colaboro com argumentos, já que me mantenho alheio ao assunto. Agora, não tolero quando a discussão tende a ofensas e brigas”, ele expressa.

Sobre aqueles que pensam que homens, obrigatoriamente, deveriam se interessar pela modalidade, Ricardo diz com sinceridade: “Penso que quem acha isso é uma pessoa limitada, presa aos pensamentos do ambiente onde cresceu. Se considerarmos pelo ponto de vista machista, tem muito esporte em que é preciso ser muito mais ‘macho’ do que jogar futebol”. E por falar nestes, são deles que nosso entrevistado mais gosta. “Gosto de esportes radicais e automobilísticos, principalmente em olimpíadas”.

Ricardo Silva.

Ricardo Silva.

O empresário, especialista em Gestão Ambiental e geógrafo, Gabriel de Queirós, é outro que não suporta a forma como os torcedores agem, e ainda a forma como o futebol é administrado, seja no nosso país, ou em todo o mundo. “O futebol como esporte é muito bom, mas a máfia envolvida, hoje tão em evidência, a exemplo da FIFA, os grandes salários dos jogares, mesmo sabendo que eles rendem muito a empresas, a alienação da população, o chamado ‘pão e circo’… acho tudo muito estúpido”, declara.

Segundo ele, seu hobbie mesmo é o bom e velho Rock and Roll! “Gosto de guitarra e ensaios com minha banda numa dosagem bem heavy metal! Sou viciado em Rock n’ Roll! Respiro guitarra, ouço rock o tempo todo que posso”, conta. E quando os amigos puxam o futebol para a roda nos ensaios? “Aí é triste! Dou os meus ‘pitacos’. De sacanagem troco os nomes, Libertadores e Campeonato Brasileiro, time de um com o jogador de outro… é só pra encher o saco mesmo!”, brinca.

Gabriel não pratica o esporte, mas já arriscou quando era mais novo e diz que “jogar bola é completamente diferente de assistir futebol”. “Primeiramente, assistir futebol na TV é um saco, exceto quando a turma se reúne para o Brasil na Copa do Mundo, pois aí temos o churrasco junto ao programa [risos]. Os jogos em si não me atraem, pois de certa forma acho tudo um grande tédio”. Quando alguém pergunta qual o seu time, ele responde de forma irônica, “Argentina”, só para alfinetar mesmo, mas conta que também adora Buenos Aires e na grande maioria das vezes torce pelo Brasil nos jogos.

Cada um com seu motivo, muitos são aqueles que não gostam de futebol. Homens, ou mulheres, isso é apenas uma opinião. Um detalhe pessoal, que não diz necessariamente nada a respeito do indivíduo, a não ser o seu desprazer por uma modalidade esportiva. Ou seja, caráter, sexualidade, outros gostos… Nada disso é determinado pelo tanto que alguém curte, ou não o futebol. De qualquer maneira, o que deve prevalecer é o respeito e a tolerância – tanto de um lado, quanto do outro. E, obviamente, ser feliz com seus gostos, sem a obrigatoriedade de vestir uma camisa apenas por que toda uma multidão também está vestida assim.

 

 

 

 

 

 

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