O desprezo ao patrimônio cultural e o “analfabeto político”
Por Anderson Moreira
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Anderson Moreira, professor de História e especialista em História do Século XVIII.

O foco de cada administração municipal varia de acordo com os gestores que se incumbem de liderar o governo, e a troca de prefeito pode mudar os rumos de determinada política pública. Com isso, os cidadãos ficam à mercê dos interesses daqueles grupos que se revezam no poder.

Em Ubá, nos últimos oito anos, o mesmo grupo político praticou um modelo de administração onde o patrimônio cultural não teve a importância que merece. Logicamente, por questões de estratégia política, determinadas áreas são priorizadas em detrimento de outras, mas a desatenção com essa área não passou despercebida.

A política pública voltada para o patrimônio em Ubá começou em 1996 com a Lei 2.696, que criou o Conselho do Patrimônio Cultural e instituiu o tombamento, isto é, a proteção aos bens considerados de relevância histórica e cultural. Os agentes do patrimônio conseguiram concluir dez patrimonializações, sendo que a última – a Fazenda das Palmeiras – foi em 2010.

Desde então, nenhum outro bem cultural foi tombado, nem registrado (forma de proteção ao patrimônio imaterial, como a mangada). Com exceção aos cartões postais que foram colocados temporariamente em alguns pontos de ônibus da cidade, também nenhum evento cultural sobre patrimônio, memória e história foi realizado pelo poder público municipal nas duas últimas administrações, a exemplo da Festa da Manga, cuja última edição foi em 2008.

A partir disso, é possível constatar a carência de eventos culturais em Ubá. Talvez a indústria moveleira pudesse se aliar ao poder público para alavancar atrativos culturais para a população ubaense. Não me refiro aos shows que costumam atrair o grande público, pois isso é cultura de massa e não contribui para o crescimento de um povo. Refiro-me a eventos que mobilizem a sociedade, que a façam olhar para si mesma, refletir sobre o passado, o presente e o que se espera das gerações futuras. Trata-se de promoção da cidadania e da consciência crítica, base para a construção de um mundo melhor.

Acredito que os responsáveis pelo setor cultural nos municípios deveriam construir mais pontes culturais com as comunidades, seja através do patrimônio cultural ou de qualquer outro meio que possibilite o diálogo. Sem isso, a educação, sozinha, dificilmente conseguirá promover a evolução do ser humano para além da instrução técnica.

Você já ouviu falar de “analfabeto político”? Infelizmente ainda somos muitos no Brasil, justamente pelo desprezo que a classe política, com raras exceções, nutre em relação a essas pontes, capazes de despertar o empoderamento da sociedade. Trata-se da valorização das histórias das comunidades, de criar condições para que as pessoas enxerguem a realidade em que vivem e se sintam capazes de transformá-la.

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