Quieta, que eu quero ouvir Cruzeiro e River Plate!

Por Cosme Elias – Especial Editoria Eu Sou Fã Revista Fato

Sociólogo

“Ele foi tão irresponsável para nós jogadores e para o treinador, por quê? Ele nunca treinou falta.” As palavras

Roberto Batata.

Roberto Batata.

de um dos melhores jogadores do futebol brasileiro, exímio cobrador de falta, talvez possa traduzir um pouco do que é a magia do futebol, razão de tantas paixões. Era a taça libertadores de 1976, 13 anos após a conquista do último time brasileiro, o Santos de Pelé. Num país de craques, ainda reminiscências da Copa de 1970, ganhar um título internacional era fazer jus a letra de seu hino, as páginas heróicas imortais. Final de jogo, o terceiro contra o River Plate, aos 44 minutos do segundo tempo, o Cruzeiro empatava em 2 x 2, falta na entrada da área, daquelas que dificilmente o craque Nelinho errava, mas numa pequena discussão de Nelinho e Piazza, Joãozinho “irresponsavelmente” tomou a frente e chutou em direção ao gol. Um único lance, sem margem para qualquer erro, se a bola não entrasse e o Cruzeiro não se sagrasse campeão, a carreira deste jogador ficaria marcada, mas ele o fez, em segundos decidiu sua própria vida e a história do seu time numa das principais competições mundiais.

O Cruzeiro se sagrava campeão da Libertadores de 1976 de forma dramática. Mas a história tem outro lado marcado pela tristeza, dentre tantos jogadores brilhantes, havia dois craques e caminhos distintos, extremos de um mesmo campo, de um lado Joãozinho, autor de talvez uma das maiores façanhas do futebol brasileiro, de outro, estava a figura do ponta direita Roberto Batata, quis o destino que aquela bola do atacante Joãozinho entrasse e o mesmo destino não deixou que o outro craque comemorasse a conquista.Um fato marcante que ficou em minha memória: talvez seja difícil hoje imaginar um país com pouquíssimos aparelhos de televisão, à época, a vida vinha pelas ondas do rádio, lugar de destaque nas residências e na sala principal, era através dele a notícia da morte de Roberto Batata, camisa 7 do Cruzeiro.

O atacante Roberto Batata chegou no Cruzeiro em 1971, além de fazer parte do legendário time que fora campeão da Libertadores de 1976, teria sido anteriormente tetracampeão mineiro, entre 1972 e 1975. Seu último jogo pelo time foi durante a libertadores contra o Alianza do Peru, no dia 12 de maio de 1976, a qual o time venceu por 4 x 0, fazendo um dos gols. No retorno ao Brasil, teria ido visitar sua família em Três Corações, seu filho estava com apenas 11 meses de idade. Durante a viagem, faleceu em decorrência de um acidente automobilístico, no quilômetro 182 da rodovia Fernão Dias.

Eram assim que sabíamos das notícias, as mais alegres e as mais tristes, pelo rádio.   As primeiras imagens do Cruzeiro chegaram ao interior de Minas Gerais somente no final da década de 1980, até então, só se ouvia pelo rádio e no final da noite de domingo poderia ver os famosos gols do fantástico, a principal emissora de TV do país centralizava todas as transmissões no Rio de Janeiro, inclusive o campeonato que se passava no interior mineiro era o carioca. Sem qualquer informação, ser Cruzeiro era antes de tudo, torcer para o time em campo e esperar a boa vontade da “poderosa” em transmitir algum jogo pelo campeonato brasileiro. Mesmo fora dos holofotes e ignorado pela mídia, Cruzeiro é um time de grandes conquistas, para quem não teve uma TV “oficial” para fazer seu marketing, o time conquistou, além dos títulos, uma imensa legião de torcedores, se nossas vitórias chegassem não somente através dos rádios, hoje, seríamos uma das maiores torcidas do país, o Brasil ignora Minas Gerais e não somente seu futebol, como sua arte, seu pensamento social e todo seu potencial, por isso, cada conquista, considero uma vitória dupla do Cruzeiro.

Parafraseando o gênio Chico Buarque de Holanda: Quieta, que eu quero ouvir Cruzeiro e River Plate! A conquista da libertadores de 1976 foi a mais importante da história do clube, marcada pela tragédia e a genialidade, tão paradoxal é o futebol, mas também é a paixão, sua mola motriz e, vou além, Manuel Bandeira, que dizia que a vida não vinha pelos jornais nem livros, mas pela língua do povo, posso dizer que a vida veio pelo rádio os primeiros contatos levaram a imaginação de lindas jogadas do tão combatido, a vez primeira que “vi” o Cruzeiro jogar, até que um dia a televisão chegou, mudaram os transmissores e então veio outra emoção, mas esta, para descrevê-la levaria mais algumas laudas, então fica para a próxima…

 

ENTRE NA REDE FATO!