Sete Vidas – Por Carla Fagundes
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Capa do livro. Foto: Reprodução

Produtor musical, roteirista, jornalista, compositor, escritor, dono de boate. Impossível reduzir a uma só palavra a trajetória de Nelson Motta, autor de sucessos como a música de abertura da novela “Dancin’ Days”, das Frenéticas, “Como uma Onda”, com Lulu Santos, ou ainda “Vale Tudo”, biografia de Tim Maia, que vendeu mais de 300 mil cópias.

Quando a  Telefonia Tim possuía um programa chamado “Grandes Escritores” e estes visitavam cidades divulgando sua obra, Nelson Motta esteve em Ubá. Não, não, não foi um inesquecível encontro. Muito antipático, achava que seria reconhecido facilmente e não queria sair do Ubá Tênis Clube para ir a um restaurante próximo. Bem diferente da simpática figura de Zuenir Ventura que sentou, contou casos e encantou. Não é Taís Alves?

Pois o referido escritor lançou sua biografia, “As sete vidas de Nelson Motta”. O livro mescla textos originais a uma seleção de reportagens, crônicas e perfis assinados nos principais jornais do país trazendo à tona a atmosfera do Rio, da bossa nova e dos festivais de MPB, universo que narrou também em “Noites Tropicais” (2000). Boa parte dos textos antigos, contudo, hoje são meramente curiosos. Já os textos atuais parecem sobras de Noites tropicais, livro no qual Motta já contou tudo o que quis – e o que pôde – contar de mais relevante e interessante. O texto sobre a abertura da discoteca Dancin’ Days, por exemplo, soa déjà vu. Sem falar que a edição do livro resulta por vezes confusa. Na intenção de “trazer o passado para o presente”, como diz a nota sobre a edição publicada ao fim do livro, textos antigos e inéditos são entrelaçados sem menções a datas. O que salva As sete vidas de Nelson Motta é a fluência da escrita de Motta, o jornalista, dono de texto sedutor, tanto ontem como hoje. Mas nem essa habilidade para prender o leitor pela escrita atenua a sensação de que o livro tem fôlego mais curto do que obras anteriores do escritor setentão, estendendo extenuando o relato musical de dias e noites tropicais.

Dos 96 textos enfileirados nas 226 páginas do livro, sem divisões por capítulos, 27 são inéditos, tendo sido escritos para o projeto. Os demais são crônicas, geralmente sobre música, publicadas originalmente pelo autor em jornais como o já extinto Última hora (entre 1967 e 1969) e O Globo (no qual Motta assinou coluna diária sobre O Globo nos anos 1970). Nem todos resistiram bem ao tempo. Dentre os que ainda hoje soam relevantes, pelo caráter visionário e pela coragem de expor o que já era sabido, mas não escrito, destaca-se Ídolo sim, líder não, crônica da Última hora em que Motta criticou a omissão de Roberto Carlos – cantor capixaba então entronizado no posto de Rei da juventude brasileira – pelo fato de o artista se recusar a tomar posição em relação a assuntos que mobilizam os jovens dos efervescentes anos 1960. Atitude (ou falta de) caracterizada por Motta na crônica como “reacionarismo” – palavra que, como se sabe hoje, volta e meia é associada a Roberto Carlos. Outro texto bem interessante – e de certa forma atual, diante das agressões a gays noticiadas cotidianamente na mídia – é O masculino e o feminino. Nesta crônica, publicada em O Globo em 1975, Motta sai em defesa de Ney Matogrosso, então vítima de campanha difamatória orquestrada pelo jornalista, compositor e produtor musical Carlos Imperial (1935 – 1992) por conta da libertária postura andrógina adotada pelo cantor no palco e na vida.

Vale registrar também Meio gente, meio bicho, não exatamente uma crônica, mas breve e preciso comentário feito por Motta na segunda metade dos anos 1960 a respeito do público de Maria Bethânia (“entusiasta, estranho”) e da figura magnética da intérprete baiana (“Ela é uma das personalidades mais fortes e fascinantes que conheço. De seu olhar duro, de seu corpo esguio, de suas mãos nervosas, mas firmes, emana uma estranha e invencível força. Ela canta o que tem vontade, veste o que lhe dá na cabeça, age sempre com absoluta coerência em relação às coisas em que acredita na vida e na arte”).

É de sua autoria também a biografia de Tim Maia que serviu de base para a peça teatral e mais tarde o filme. Grande sucesso também foi “O Canto da Sereia” imortalizado em uma minissérie de mesmo nome.  O furacão musical estava na hora certa e no lugar certo a ponto de acompanhar a turnê dos Rolling Stones pela Europa na década de 80.

Galante, engraçado e sempre bem informado, parece que não há mais nada a ser feito na música popular brasileira, pois tudo passou por seu incrível faro para o sucesso.

Sempre alguém me para e comenta os textos que aqui publico.  Raul, garçom do Parrilla, me parou e disse: Carla, você escreve? O jeito era de admiração e como se me parabenizasse pelo feito. Senti-me valorizada em última instância. Gestos assim é que fazem valer a máxima: escrever não é um ato solitário. Obrigada, Raul!

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