Ubá: vamos voltar a ser a Cidade Carinho? – Por Carla Machado

Carinho, palavra que está lá no Aurélio “sm. Afago, meiguice, carícia”. Na entrada de Ubá, para quem vem de Juiz de Fora, existe uma placa que diz: “Bem vindo a Ubá, a cidade carinho”. Esta placa foi a minha primeira relação, digamos, afetiva, com a cidade, que eu já sabia que existia, mas nunca tinha visto, nem passado por ela.

Conheci Ubá de passagem, nas minhas idas de Juiz de Fora, minha cidade natal, para Viçosa, onde eu fazia faculdade e duas coisas me chamavam atenção quando passava por ela: a placa que denominava a cidade como cidade carinho, o que me dava uma sensação de acolhimento e as palmeiras ao longo do Rio Ubá, que deixavam a cidade com um ar elegante.

Em Viçosa, fiz excelentes amigos ubaenses, amigos que carrego no coração até hoje, e entendi porque a cidade era chamada de cidade carinho, os ubaenses que conheci eram amáveis, gentis, alegres e sempre muito atentos e próximos aos amigos, sempre protegendo, cuidando e afagando a alma dos colegas. A Fernanda Abrão, que foi minha amiga de faculdade desde o primeiro dia, já decorou meu nome nos primeiros minutos de conversa, me chamou sempre pelo diminutivo, como se fossemos amigas de infância. Quis me ajudar arrumando uma república para eu morar e eu que sou péssima em fisionomias, já no segundo dia de aulas, a vi toda sorridente, gritando meu nome e me dando um tchau animado na reta da UFV, aquele sorriso e abano de braços, de alguém que eu mal conhecia, me fez sentir completamente acolhida, numa cidade estranha para mim. Posso dizer que uma ubaense me fez sentir forte nos primeiros dias de solidão em Viçosa, apenas com um sorriso e um aceno efusivo. A imagem que eu tenho do povo ubaense é este: de gente que sempre recebe com um sorriso no rosto, uma aperto de mão ou um balançar de braços.

Depois de formada, a própria Fernanda me chamou para fazer uma seleção para professora na FAGOC, que ainda estava nascendo, vim e fui ficando… aqui posso dizer que me tornei professora e sempre me senti acolhida pelos alunos, professores, colegas, vendedores, garçons, atendentes dos hotéis, pelos lugares que passei o carinho era visível. Em Ubá fiquei entre ida e vindas por quase dez anos, muitas caronas, muitos ônibus da Unida e muitos quilômetros rodados, muitos abraços de muita gente que encontrei por aí.

Gostei desta cidade que me adotou e me acolheu, tanto que mesmo distante há algum tempo, continuo ligada à cidade que me fez professora, que me deu alunos que me enchem de orgulho, que me permitiu fazer novos e bons amigos e que me permitiu ser colunista, e, na maioria das vezes, escrever sobre a língua portuguesa.

Gostei de Ubá porque me sentia livre andando pelas ruelas da cidade, descobrindo uma loja nova no meio do caminho quando ia ao centro almoçar; gostei de Ubá porque onde quer que eu estivesse, eu recebia sempre  um balançar de braços e um “oi, professora”, o que me fazia sentir acariciada. Gostei muito de Ubá porque a cidade tem um bairro que não conheço, mas que sempre achei de um nome lindo e inspirador chamado “Meu sonho”. Todas as vezes que via o ônibus do bairro, ficava pensando quais eram meus sonhos do momento, sempre quis ir lá, achava que entrando no bairro, meus sonhos se realizariam.

Mesmo distante continuo acompanhando a cidade, através das notícias publicadas mensalmente na revista Fato, que recebo carinhosamente enviada pela Thalita Nogueira, ubaense querida, que não conheço pessoalmente, mas que só me faz ter certeza de que as pessoas da cidade são sempre acolhedoras. Continuo acompanhando Ubá pelas redes sociais e pelos amigos, que vez ou outra, encontro pelas ruas de Juiz de Fora.

Apesar de toda a sensação de carinho, nos últimos tempos, tenho notícias de que a cidade tem convivido com a violência, assassinatos, assaltos e outras ações que preocupam quem gosta da cidade. No último sábado de carnaval, tive notícias de uma bala perdida que atingiu uma professora, vi o quanto ela era querida, animada e cheia de amor à vida. Fiquei triste, não a conhecia pessoalmente, mas vi que tínhamos muito conhecidos em comum. Solidarizo-me com todos que perderam essa pessoa tão querida, solidarizo-me também com outros tantos que têm perdido entes e amigos queridos por causa da violência.

Penso que Ubá precisa voltar a ser a cidade carinho, a cidade que recebe tão bem, com tanto afeto, com tanta generosidade, precisa também distribuir carinho entre os seus. Ubá tem de voltar a ser lembrada como a cidade que nos permite caminhar por suas ruas com um sorriso no rosto e os braços sempre abertos a receber e distribuir carinhos.

É esta Ubá que guardo comigo: a cidade que sempre me acariciou!

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