88 teclas: uma paixão de corpo e alma
Conheça o jovem pianista Renan Santos

Por Scarlett Gravina

Fotos: Arquivo Pessoal

 

Renan Santos

“Alguém muito célebre disse uma vez a seguinte frase: ‘Tudo que eu tenho, a música quem me deu’. Hoje essa frase resume minha vida completamente. Minhas grandes amizades, meus amores, meu trabalho, minhas oportunidades, meus sonhos, tudo em nome da música! Ter embarcado nessa louca viagem – porque acredito que todo músico tem que ter uma dose de loucura – foi uma escolha inconsciente que fiz, mas não poderia ter feito melhor”. Estas são as palavras vindas de um jovem, que entre partituras, notas e acordes, descobriu sua verdadeira paixão: a música. Com 21 anos, Renan Santos já pode dizer que encontrou o que faz seu coração vibrar, já que sua aptidão artística, desenvolvida ainda na infância, o fez perceber que o frio na barriga durante uma apresentação é a resposta de que o palco é o seu lugar.

Com 6 anos Renan já cantava na igreja, onde era chamado de “garganta de ouro”.  Além do canto, após ganhar um violão de presente, ele entrou no Conservatório Estadual de Música (CEM) em Visconde do Rio Branco. Embora a música já estivesse presente desde cedo em sua vida, as aulas que frequentava não o satisfaziam; para ele, faltava algo a mais. “Foi em 2010 que tudo mudou. Eu realmente não gostava de ir para o CEM, era uma tortura na época. Fazia de tudo para não ir às aulas. Como eu sempre dizia que não haveria aula, simplesmente para não ir para o conservatório, minha avó anotou o telefone de lá e começou a ligar para confirmar se não haveria mesmo. Para me convencer a continuar com as aulas ela usou o seguinte artifício: ou você vai, ou começa a trabalhar no mercado”, confessa. Foi então que Renan começou a descobrir sua verdadeira paixão. “Comecei a gostar mesmo do piano quando ganhei meu primeiro teclado: um Casio simples, com uma tecla quebrada, de segunda mão; foi ali que começou o romance. Pela manhã frequentava a escola, à tarde acompanhava os corais. E, mesmo depois de um dia todo ao piano, eu me fechava no quarto e começava a tocar. Fui percebendo minha evolução e tudo o que eu sentia ao tocar. Foi aí que minha vida deu a primeira reviravolta: nada de ser professor ou motorista, eu queria mesmo ser pianista”, conta.

Diante do seu encantamento com o instrumento musical, Renan não se acomodou e, aos poucos, durante suas aulas foi conquistando espaço, reconhecimento e aprendizados no meio musical. “De um lado, elogios inebriantes devido à boa técnica e pouca idade; de outro, críticas que aprendi a ver como construtivas, também devido à técnica e à pouca idade. Lembro bem de um comentário que chegou aos meus ouvidos certa vez: ‘O Renan toca bastante, mas não tem técnica’. No primeiro momento, embora eu sequer soubesse o que era ter técnica, foi devastador; depois disso, procurei saber para ter ‘esse negócio’ que eu precisava e hoje eu tenho”, conta orgulhoso de sua trajetória.

Completando 15 anos de caminhada musical e 8 anos com conhecimentos teóricos, como gosta de dizer, hoje o jovem se dedica como professor de música da Educação Básica em duas instiuições privadas de Ubá, ensinando crianças entre 6 e 10 anos. Em suas aulas ele utiliza a flauta doce como instrumento de trabalho e também desenvolve ensinamentos sobre a história da Música Popular Brasileira. “Hoje em dia, é necessário apresentar a essas crianças canções de verdadeira qualidade, com harmonia e letras bem-feitas e construtivas, que transmitam valores”. Renan comenta que músicas de artistas como Tim Maia, Raul Seixas, Engenheiros do Hawaii, Jorge Vercillo, Djavan, entre outros, são constantes em suas aulas. “Meus alunos recebem muito bem às canções desses ícones e, vez ou outra, comungo-as com canções da contemporaneidade. Enquanto músico e professor de Música, me vejo na obrigação de apresentar esse repertório que, infelizmente, vai sendo esquecido aos poucos, a essas crianças para que, assim como eu que sou um perpetuador de tal cultura, eles também possam ser”, relata orgulho de seu trabalho.

O pianista Renan Santos acompanhado de suas 88 teclas, como gosta de se referir ao piano, seu instrumento favorito.

Apaixonado por tudo que envolve música, Renan afirma possuir um gênero musical para cada momento, intercalando entre MPB, músicas latinas e óperas, já que se arrisca também no canto lírico. “Eu cresci em um seio musical muito forte. Para se ter uma ideia, aos 10 anos eu ouvia Pavarotti e era apaixonado pela voz dele! Ouvia também Plácido Domingo e José Carreras. Mal sabia eu que eles eram os famosos ‘Três Tenores’! Depois comecei a ouvir Vinícius de Moraes, com o famoso álbum infantil ‘A Arca de Noé’, ainda em vinil; Tom Jobim; Raul Seixas, que me foi apresentado pelo meu pais quando eu tinha apenas 4 anos; mais velho descobri grandes nomes como o de Ana Carolina, Alcione, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara! Embora apenas o “Três Tenores” seja a referência no lirismo, os outros cantores compuseram minha trajetória e corroboraram para que eu desenvolvesse, apenas escutando-os, uma técnica no modo de cantar que hoje é bastante consolidada”, conta completando ainda sobre seu hobbie.

“O fato é que o canto lírico tem mais técnica. Gosto de dizer que ele é mais difícil e eu gosto disso; gosto dessa dificuldade, de ter trabalho para conseguir chegar a algum lugar, sabe?! A satisfação depois de pronto, nossa, me leva ao júbilo! É diferente de uma canção de hoje em dia, por exemplo, que você canta uma vez e fica pronta; falta melodia, aquele brilho, os enfeites que uma boa canção, uma canção rica, traz! Saber fazer a respiração e “colocar” a voz para dar um agudo aveludado no limite da extensão vocal é uma coisa complicadíssima que o cancioneiro popular contemporâneo não traz. De todo modo, talvez isso aproxime, realmente, a população da música, mas causa uma tremenda defasagem no repertório nacional contemporâneo em si”, conta.

Apresentações como solista, acompanhador e cantor também são alguns dos trabalhos realizados por Renan, que não esconde sua tamanha admiração pela música. Afinal, como ele diz, “tudo por 88 teclas”. “Sou apaixonado pela sala de aula, mas amo minhas 88 teclas, amo os desafios infinitos da música, sua renovação, sua atemporalidade. Amo os dias de estresse e o cansaço mental que me proporciona o piano depois de jornadas diárias de 4 horas ininterruptas de estudo, os mistérios, os segredos, as viagens dentro de uma obra. Tudo isso me encanta! Nada é tão completo quanto a música! É uma arte suprema! Suprema e acessível! De uma criança que canta “Borboletinha” a uma mulher que canta uma ária nos píncaros do agudo, é arte, é música! Mais do que combinação de sons, música é sentimento, é expressão, é o registo de um povo. A música não é, senão, um passaporte para uma viagem a diversos tempos e lugares apenas com a entrega à inspiração”, finaliza o jovem pianista.

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