Enio Moreira Mendes: coração ubaense e alma de artista
“Eu sou mesmo EXAGERADO”

Por Scarlett Gravina e Vanessa Santos

Fotos: Arquivo Pessoal

O artista ubaense, Enio Mendes

Ele é intenso. À flor da pele. Do tipo que não pensa para falar e não hesita em viver. Com alma de artista e expressão escancarada, “à lá” Cazuza. Talvez Ubá tenha ficado pequena para ele. Ainda na adolescência, Enio Moreira Mendes se viu na necessidade de escrever sua história, transformando-se no personagem principal, daqueles que possuem características típicas de quem nasceu para fazer seu próprio espetáculo. Afinal, protagonizar, desde sempre, fez parte do seu show.

Sem medo do futuro e contrariando padrões, Enio construiu sua identidade a partir de suas escolhas, as quais o ajudaram a se transformar no profissional que é hoje: ator, compositor e cantor. “À beira dos 40 de nervos”, como ele mesmo diz, quando perguntado sobre a sua idade, o ubaense possui uma bagagem repleta de experiências constituídas por cada lugar que passou. “Eu sai de Ubá cedo, com 16 anos. Fui cantar na banda Esquema 4, um mito da época, depois na Banda Salamandra de Cataguases. Na sequência, morei no Rio e trabalhei para o famoso empresário Ricardo Amaral. Voltei para Ubá e montei a Banda Shumasso de Pixorra, que foi um sucesso regional. Resumindo; eu sempre cantei”, recorda.

A paixão pela arte, mais especificamente pela música, deu vida a uma extensa trajetória profissional. Há 12 anos o brasileiro reside na cidade de Zurique na Suíça onde atualmente se divide entre diversas atividades, atuando como cantor e ator na companhia de teatro do diretor alemão Volker Hesse, além de realizar shows solos e projetos de clássicos e jazz. “Meus shows são como eu, uma mistura, um grito, uma esperança. É teatral, dramático, romântico, latino com orgulho. É um afago na alma, um ataque contra a superficialidade dos valores em vigor”, declara Enio.

Sedento pelo que a vida tem a lhe proporcionar, ele não se acomoda, vive no sentido mais real da palavra, se permitindo e se esforçando para conquistar tudo o que almeja. Gravar um disco e trabalhar com diretores influentes e importantes do teatro também são alguns dos desejos de nosso conterrâneo. Um pouco de Cazuza e um pouco de Enio, são doses mais que suficientes para escrever a história do Ubaense Ausente desta edição. Confira a seguir, os desafios, as saudades e os sonhos do artista que recriou seu próprio mundo.

RF: Conte-nos como foi a sua infância. Quais são as maiores recordações do tempo de criança?

Enio em Amster

EM: Sou Natural de Ubá, nascido e criado na terra da manga, de Ary, das fábricas, das calças jeans e de um salário e meio (risos). Minha infância foi mágica, louca e livre. Nadar no Rio Ubá também era algo que eu fazia. Minhas maiores recordações dessa época são meus amigos do bairro Santa Cruz, a queimada, os piques, as novenas de Dona Rosa, mãe do “Paulinho Cocão”, um padre aventureiro, mas super gente fina e uma mulher meio insana conhecida como Teresinha, que descia da Cohab até o centro gritando palavras um tanto quanto ousadas e eu ali, enquanto criança, bem intuitivamente, sem entender muita coisa, mas me deliciava na perplexidade estampada na cara dos adultos provocados pelos gritos daquela moça. Eu tenho amigos há mais de 32 anos frutos dessa fase, gente que eu amo muito.

RF: E na adolescência, quais lugares mais gostava de frequentar?

EM: Minha adolescência foi um misto de sonho, terror e descoberta: eu era um menino gay, escurraçado na rua, na escola, hostilizado dentro da própria família, ninguém entendia nem sabia lidar comigo, tive que criar mecanismos de sobrevivência. Era despreparo por todos os lados, falta de empatia. Sem nenhuma vitimização: só quem tem sua humanidade tirada por ser diferente sabe do que eu estou falando e ponto final. Eu me apegava nas aulas de ensino religioso de dona Ana Carneiro, que nos aplicava o “Jornal da Cidadania” do sociólogo Betinho, nas aulas de história da Professora Loreto, no teatro de Helder Carneiro recém chegado do Rio, no Madrigal Ubaense, na figura do ilustre maestro Marum Alexander. Me “protegia” na casa da minha amiga Tatiana Aleixo, lá sempre foi um refúgio. (Seus pais, Joana e Dilmar Aleixo, chegaram a incluir meu nome na lista de desejos das compras do supermercado. Que privilégio!) A vida sempre me deu caminhos e anjos, portanto, eu não tenho o direito de não acreditar em Deus. Depois vieram os bailes de debutantes do Orlando Silva no Tabajara, o Sanatório Geral ainda em frente ao Chalé, o Balet de Valéria, Rose Silva e Micas no Tabajara, a natação na Praça de Esportes com o Sargento Farias, a Turma do Lake no Raulzão, enfim. Muito close para aquela época. Eu causei.

RF: Em quais escolas você estudou?

Integrando o grupo de dança pop e contemporânea Maddancers

EM: Estudei na Antonina Coelho, Cândido, “Raulzão” e no antigo Pitágoras.

RF: Pode-se dizer que a música é sua grande paixão?

EM: A música me salvou. Eu entendi muito cedo que quando cantava, recebia atenção das pessoas, eu compreendi que quando abria a boca, tocava o coração delas, recebia amor automaticamente de volta. Fazia muito sentido para mim, tanto que nunca mais parei de cantar.

RF: Onde você busca inspiração para compor suas músicas?

EM: Busco inspiração na vida, na dor e no prazer de ser quem eu sou, de ser humano, no ser humano.

RF: O que te fez sair do país?

EM: O que me fez sair do Brasil foi simplesmente a falta de perspectivas ou não poder vê-las.

RF: Quais foram os maiores desafios enfrentados durante sua carreira e na sua mudança de país?

EM: O maior desafio na minha carreira foi e é convencer as pessoas que trabalham comigo das minhas ideias. O medo sempre paralisa, eu como nunca tive o direito de viver numa zona de conforto, arrisco. Às vezes me dou mal, e daí? Viver fora do Brasil é a melhor coisa para se entender o Brasil e o brasileiro, pois se vê tudo e todos por dentro e por fora. Nós não somos tão legais como pensamos… Não mesmo. Aqui, meu maior desafio foi realmente me integrar, aprender o alemão, entender essa mentalidade estranha deles de não saber lidar com as emoções e tomar os sentimentos como sinal de fraqueza. Em contrapartida, amo a maneira que eles defendem o estatal em detrimento do privado, a ideia de coletividade que há aqui, é maravilhosa. Odeio romantizar, mas perder a ternura, jamais.

RF: Hoje você mora na Suíça trabalhando com o que ama. Sente-se uma pessoa realizada? Se não, o que falta para realizar?

EM: Falta muita coisa, mas não sou do tipo insaciável… Quero gravar um disco, trabalhar com diretores como Marthaler e Dominik Flashka.

Com seu querido pai, o também Enio Mendes

RF: Como é a relação com sua família? Com que frequência você consegue visitá-los?

EM: Meus pais vivem em Ubá e vou infelizmente menos do que deveria/gostaria. Sinto muita falta do meu pai Enio, o bombeiro. Muita.

RF: Conte-nos um pouco sobre sua personalidade. Quais suas qualidades e defeitos mais marcantes?

EM:Enio é Enio. Ninguém me ama ou me odeia mais ou menos. E que bom que é assim. Odeio meio termo e estar em cima do muro, isso não tem nada a ver com ser diplomático e flexível, sabe? Que também são coisas importantes. Gosto de gente inteira, do agora. Essa coisa de passado e futuro é conversa capitalista selvagem para tirar nosso sono em nome do ter através do consumo, que virou status de segurança ao invés de ser. Resultado: um monte de gente vazia, frustrada, sem rumo, insaciável… Viver assim é estar morto vivendo. Quero gente de verdade.

RF: O que a música representa pra você?

EM: A música representa para mim a ligação com aquilo que a maioria das pessoas entende como Deus, independente de Ele ser ou existir. Para mim é isso.

RF: Possui algum álbum ou uma música marcante na sua vida?

EM: O álbum da minha vida é Ray Of Light da Madonna, uma obra prima da música contemporânea.

RF: Além dos seus compromissos, você encontra tempo e gosta de “turistar” na cidade onde mora?

EM: Eu viajo muito, meus lugares preferidos são a ilha da Sicilia, Lisboa e Berlin (Berlin é uma perdição – se eu contar tudo o que já vivi lá… Nem Cazuza).

Integrando o grupo de dança pop e contemporânea Maddancers

RF: Qual experiência que mais te agregou ensinamentos durante o seu período fora do Brasil?

EM: A experiência que mais me agregou fora do Brasil foi poder entender o país por outro prisma, visto de fora, é revelador. Somos um povo muito inseguro, medroso e o pior, sem motivo nenhum para tal. O Brasil é muito mais do que nós, brasileiros, imaginamos. Por isso a Europa e USA fazem de nós pequenos… Eles sabem do nosso poder, só falta agora nossa gente entender isso. Aqui às vezes preciso dar uns gritos para ser respeitado como brasileiro. Eles realmente acham que somos todos “mulheres da vida” e jogadores de futebol, duas profissões maravilhosas por sinal. Clichês não deveriam existir em 2018.

RF: Conte-nos o que você mais gosta de fazer em Zurique! A cidade te surpreendeu de alguma forma?

EM: Zürich tem a maior e melhor qualidade de vida do mundo. Tudo aqui é como num cartão-postal, como num paraíso. Mas a que custo? Muito trabalho, lógico, responsabilidade e tudo, mas o dinheiro dos bancos fede, é muita sujeira fantasiada de “tudo bem” ou de “somos neutros”. Já disse antes, não romantizo nada. Apesar do capitalismo, eu amo isso aqui, não largo por nada. Adoro ir à Casa da Ópera, nadar no lago de Zürich no verão, andar pela cidade de skate com fone de ouvidos, adoro paquerar nos bares. Eu não paro. Deus me dê vida. (risos).

Acompanhado do amigo ubaense Pablo Gabriel em Londres

RF: Qual seu sentimento em relação à Cidade Carinho?

EM: De amor, muito amor, de agradecimento. Ubá foi laboratório. Ubá é um micro mundo.

RF: Ainda tem contato com amigos conterrâneos?

EM: Eu tenho muitos, muitos amigos em Ubá até hoje. Se for listar, fico até amanhã de manhã.

RF: Quando se lembra da vida que levava em Ubá, do que mais sente falta?

EM: O que mais me falta na verdade aqui, é a espontaneidade de não ter que marcar tudo na agenda. É poder abraçar e beijar as pessoas sem nenhuma conotação/intenção sexual. É poder expressar emoção também.

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