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FUTEBOL, DINHEIRO E A DISCRIMINAÇÃO

Um pouco de reflexão sobre as arquibancadas e a sociedade

Publicado por: , em 11/03/2020 - Categoria: COLUNAS

Tempo de leitura: 3 minutos

Oi gente, tudo bem com vocês?
Espero que sim!

Se me permitem a honra e a confiança da leitura, a coluna deste mês aqui vai abordar um tema delicado, porém muito comum no futebol e na sociedade em geral, a discriminação. Estava eu com a minha “doença” de assistir futebol pela TV, quando me deparo com uma das cenas mais bizarras que já vi no mundo do esporte. Restavam 15 minutos para o jogo terminar e o Bayern de Munique vencia com muita tranquilidade, no campo do adversário, a equipe do Hoffenheim, por 6 a 0. Foi aí que o jogo do Campeonato Alemão simplesmente parou e a atenção voltou-se toda para as arquibancadas.

Parte da torcida do Bayern (os chamados “ultra”), conhecidos por serem radicais nos estádios, protestavam com xingamentos, vaias e faixas estendidas em tom de ofensa e discriminação. Porém, o alvo não foi um negro, uma mulher ou um homossexual – normalmente os mais ofendidos nos estádios, e sim, Dietmar Hopp, um bilionário alemão que fez fortuna com uma empresa de software e há anos começou a investir no Hoffenheim, levando o time da sexta à primeira divisão.

A partida foi interrompida. Já prevendo uma futura punição, jogadores, comissão técnica e até dirigentes do Bayern de Munique dirigiram-se aos torcedores tentando fazer com que eles encerrassem a manifestação, o que não aconteceu. Sem sucesso, os jogadores foram para o túnel entre o vestiário e o campo, onde a equipe do Hoffenheim aguardava o desfecho da situação. Após alguns minutos, o árbitro comunica o retorno das equipes ao gramado para a continuidade do jogo. E aí o protesto mudou de lado! Integrantes dos dois times trocaram passes até o relógio cravar 90 minutos com o único objetivo de mostrar que não estavam dispostos a competir naquele ambiente de hostilidade.

Jogadores de Hoffenheim e Bayenr trocam passes de forma amigável como forma de protesto. (Imagem: REUTERS/Kai Pfaffenbach)

Não é a primeira vez que Hopp tem seu nome xingado nos estádios alemães. Torcedores do Borussia Dortmund, o segundo clube mais poderoso do referido país atualmente, já ergueram faixa semelhante. Por lá, eles não aceitam quando um poderoso investidor é capaz de mudar o patamar de um clube. Seria como ferir as raízes da tradição do futebol e parece ter influência do novo nacionalismo alemão. E o que é ainda mais curioso é que esse movimento é formado, em sua grande maioria, por torcedores jovens.

Penso que a decisão dos jogadores em “protestar contra o protesto” é justa e até louvável, mas confesso que gostaria de ver atitudes corajosas deles quando o alvo são os atletas negros, discriminados com muita frequência nos estádios. Ou ainda as mulheres e homossexuais, também “lembrados” de forma pejorativa nas arquibancadas.

A discriminação é algo muito constante no esporte e é apenas um reflexo da sociedade – não só alemã, mas também brasileira, americana, francesa, italiana… Atitudes assim são vistas todos os dias em estádios, ruas, escritórios, indústrias, festas e nos mais diversos ambientes sociais. As autoridades que deveriam zelar pelo rigor na punição não o fazem, muitos atletas por falta de coragem não se posicionam e os times, esses estão bem longe de se importar, de fato, com tal situação.

Ah! E sobre a influência do dinheiro do investidor no clube de futebol, ficamos sem respostas para várias discussões importantes. Quem são os donos de um clube? Quem realmente manda? Quem sustenta o espetáculo? O que é mais importante: a liberdade financeira ou o equilíbrio das competições? Se aqui no Brasil a gente não consegue fazer nem um calendário razoavelmente decente, imagina isso. Grande abraço!

Guilherme Bonissate

Guilherme Bonissate é jornalista, mineiro natural de Ubá, amante da família e dos amigos, metido a boleiro, doido por futebol, resenha e churrasco. Atualmente trabalha na TV Integração de Juiz de Fora.