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Gravidez e depressão

Publicado por: , em 29/05/2020 - Categoria: COLUNAS

Tempo de leitura: 3 minutos

A gravidez é vista por grande parte da sociedade como um período esplêndido, que traz extrema felicidade a toda mulher. Além disso, é comum a ideia de que a natureza é sábia, protegendo a saúde emocional durante o período de gestação. Ambas as afirmativas anteriores estão erradas e são pensamentos que afastam as gestantes de um correto cuidado com a saúde mental.

A gestação é um período de vulnerabilidade às alterações de humor e à ansiedade, tanto devido às enormes oscilações dos hormônios, quanto às expectativas e mudanças de realidade.

A depressão é o transtorno mental mais frequente na gestação, acometendo entre 20 e 25% das gestantes de países em desenvolvimento, o que é muito maior do que a frequência na população geral. Porém, devido ao estigma de que se deveria estar feliz na gravidez, somente um quinto das gestantes com depressão procura ajuda de algum profissional de saúde devido ao quadro, por sentirem vergonha ou culpa por não estarem bem.

Nas consultas de pré-natal, nem sempre é rotina investigar o humor da gestante, o que poderia ajudar muito a evitar os subdiagnósticos. Outra situação possível é que mesmo quando a gestante se queixa dos sintomas, eles podem ser confundidos pelo obstetra, pela família ou pela própria paciente, com sintomas comuns da gravidez, pois muitos se sobrepõem, como cansaço, labilidade emocional, redução do apetite sexual, mudança de apetite, distúrbios do sono. É importante diferenciá-los pela gravidade, pelo impacto no dia a dia, pela frequência, além de pesquisar outros sintomas, como falta de prazer nas atividades, sentimentos de culpa, desinteresse pela gestação e pensamentos suicidas.

Mesmo com a procura por ajuda e com um diagnóstico correto de depressão, pode acontecer que a gestante, a família ou o obstetra sintam medo de fazer um tratamento medicamentoso e prejudicar o feto ou o bebê. Porém, existem tratamentos liberados para o período da gestação e o que muitos não se perguntam é: – E se a grávida não for tratada?

A depressão e a ansiedade não tratadas durante a gestação aumentam o risco de abortamento espontâneo, de complicações obstétricas, de exposição ao álcool, à nicotina e a outras drogas, de comportamentos autoagressivos e suicidas e aumentam muito o risco de depressão pós-parto. As gestantes deprimidas não tratadas podem deixar de se cuidar e de cuidar de outras doenças (como hipertensão e diabetes), deixar de tomar vitaminas, de cuidar da alimentação, do sono, das atividades físicas, podem apresentar assim pior adesão às orientações, mais faltas às consultas de pré-natal, menor realização de exames necessários. Também estão aumentados os riscos de prematuridade, de baixo peso ao nascer, de necessidade de UTI neonatal.

Há maior risco de comprometimento no desenvolvimento do bebê cuja mãe deprimida não foi tratada na gestação e no pós-parto, como alterações no sono, na cognição, na linguagem, no contato visual, além de maior incidência de transtornos psiquiátricos na infância. Essa mãe no pós-parto pode não conseguir cuidar de forma adequada do filho, aumentando o risco de acidentes e lesões no bebê por desorganização e cuidados perinatais inadequados. Essas informações mostram a necessidade de avaliação do quadro emocional da gestante de forma cuidadosa, para pesar riscos e benefícios e escolher o melhor tratamento individualizado e consciente, mas sem estigmas ou tabus.

 

Dr.ª Amanda Teixeira Tolomelli

Residência Médica em Psiquiatria pela UFJF; Pós graduação em Terapia Cognitivo-comportamental pela faculdade Redentor; Graduação em Medicina pela UFJF.