Os segredos da Cerveja Artesanal
Produtores locais revelam como é feita a bebida que se tornou a “queridinha” entre os consumidores

Por Vanessa Santos

Em qualquer top 10 que se veja ela está lá, dividindo o pódio no que se refere as bebidas mais consumidas no mundo. Aliás, se fizermos uma viagem no tempo, veremos que a cerveja ganhou fama há milhares de anos, surgindo antes mesmo da roda e até da escrita. Foi no Oriente Médio, onde se tinha o hábito de cultivar cereais, que ela nasceu. A “breja”, como costuma ser chamada em São Paulo e algumas outras regiões, espalhou-se pelo mundo ganhando cores, aromas e sabores distintos.

Feita essencialmente à base de lúpulo, malte, leveduras e água – segundo a receita original – a bebida, cujo processo de fabricação leva semanas, também ganhou a adição de alguns ingredientes e conservantes, o que garante que o produto tenha um menor custo e dure por mais tempo. Foi nessa lacuna que a cerveja artesanal surgiu. De maneira despretensiosa (ou não), amantes da bebida começaram a produzi-la à sua maneira, priorizando o paladar e a qualidade ao invés da quantidade.

Confeccionada a partir de ingredientes selecionados e sem aditivos químicos, a boa fama da bebida produzida em casa ou em pequenos estabelecimentos, difundiu-se de tal maneira que, segundo informações do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o número de cervejarias artesanais registradas no país cresceu 37,7% em 2017. Seja por hobby ou profissão, produtores locais compartilham a mesma paixão: confeccionar a própria receita da bebida mais querida entre os consumidores.

O criador da Cerveja Moreira, Felippe Moreira.

“Tento produzir estilos de cervejas para todas as pessoas, desde as pouco iniciadas no meio, até para os velhos consumidores”. Felippe Moreira (31). Químico e responsável pela Cerveja Moreira.

O gosto pela cerveja certamente vem de berço. Membro da família proprietária do famoso Bar do Moreira, o jovem Felippe de Souza Moreira, mais conhecido entre os amigos como “Buri”, é o grande responsável pela bebida que conquistou os consumidores do referido bar há mais de um ano. Apesar do contexto familiar, o desejo de confeccionar a própria cerveja surgiu durante o período universitário. “Cursei química na Universidade Federal de Juiz de fora (UFJF) de 2006 a 2011, quando conheci algumas cervejas diferentes e logo me interessei. Anos depois, vi que era possível fazer a bebida em casa e comecei a estudar compulsivamente. Em 2015 comprei os equipamentos em um site especializado, embarquei na aventura e me encantei com o processo”, conta o rapaz.

Com a primeira remessa em mãos, o químico promoveu a degustação entre os mais próximos. “Como tenho amigos que já consomem cervejas especiais há algum tempo, os próprios me encorajaram a continuar, pois, segundo eles, as minhas cervejas estavam muito boas pelo pouco tempo de experiência e valia a pena seguir produzindo e aprimorando as técnicas”, recorda acerca do sucesso de sua criação.

Segundo ele, a fabricação do produto é um processo longo que demanda paciência e disposição. “A primeira fase que é conhecida como brassagem, dura em média 6 horas, as etapas de fermentação, maturação e clarificação levam em média 14 dias e, por fim, há o envase, onde é adicionada uma solução de açúcar conhecida como priming. Somente depois de cinco a sete dias que a cerveja pode ser consumida. Ou seja, o processo dura aproximadamente 21 dias”, explica o jovem que executa todo o procedimento sozinho em sua residência.

Responsável pela criação de três rótulos diferentes da bebida, Felippe aconselha aqueles que desejam criar sua própria receita. “As informações necessárias para produzir cerveja são de fácil acesso, todavia, é preciso estudar muito sobre as escolas cervejeiras bem como os estilos de cerveja, conhecer sensorialmente as cervejas, ter muita atenção em cada etapa de produção, tomar nota de tudo que acontece no processo, prestar a atenção nas críticas dos consumidores e saber exatamente o que está fazendo. E uma coisa que não pode faltar é paixão pelo que faz. Não se faz cerveja boa sem amor envolvido”, conclui.

O criador da Noé’sBeer, Daniel Ferrari.

“A cerveja artesanal é feita com mais dedicação, carinho e a proximidade da pessoa que produz com o produto final é maior que em uma cerveja produzida em massa. Acredito ser esse excesso de detalhes o motivo das cervejas artesanais terem conquistando tantos adeptos nos últimos anos”. Daniel Ferrari (28). Engenheiro civil e criador da Noé’sBeer.

Uma paixão que saia dos bares e das prateleiras do supermercado, agora sai de dentro de casa. Água, malte, leveduras e lúpulo, são os ingredientes necessários para que o engenheiro Daniel Campos Ferrari Noé confeccione a própria cerveja. Inspirado por um seriado norte-americano e movido pelo desejo de fazer um produto diferenciado, o jovem estudou e, em segredo, deu início a aventura. Mas a discrição não se manteve por muito tempo. Os familiares logo tomaram conhecimento e aprovaram a ideia.

“A primeira degustação aconteceu por acaso, pois eu estava produzindo escondido. Apenas meus pais sabiam. E em um almoço de páscoa com boa parte da família reunida, minha mãe contou para todos, inclusive para minha namorada, que não sabia e ficou muito brava. Então meu pai serviu aos presentes e todos gostaram, inclusive ela, que hoje é uma das que mais apreciam e incentivam. O nome da cerveja, Noé’sBeer, foi dado pelos meus familiares nesse mesmo dia, foi muito bacana!”, conta.

Daniel afirma que tem predileção pela bebida com um toque de sabor mais forte, no entanto, ele procura diversificar a receita a fim de agradar ao máximo possível: “eu particularmente gosto muito de cervejas lupuladas, mais amargas, com aroma cítrico e frutado, por isso sempre faço uma APA (American Pale Ale) para deixar na minha geladeira. Mas sei que muitas pessoas têm dificuldade em apreciar esse tipo de bebida, então faço algumas com toques de malte e menos amargas, afinal, todos merecem tomar uma cerveja de qualidade!”.

Fabricando de maneira bem artesanal, o engenheiro ainda não pensa em comercializar o produto, mas não descarta a possibilidade: “por enquanto produzo somente para apreciação da minha família e meus amigos, pois tenho outros projetos que dependem de mim, mas quem sabe em um futuro próximo não tenhamos Noé’sBeer para o público apreciar também?!”, pontua o jovem, que enaltece a satisfação em tornar concreta uma paixão tão genuína. “O ideal, independente de estilo, é projetar uma receita pensando bem no que você almeja e acompanhar o processo produtivo que você desenvolveu para não fugir do que foi planejado… Fiquei muito surpreso na primeira leva de cerveja, não acreditei que tinha conseguido confeccioná-la em casa. Foi uma sensação muito boa que ficou ainda melhor com a aprovação de todos familiares e amigos, e essa sensação sempre se renova quando experimentamos uma receita nova de Noé’sBeer”.

O criador da Cerveja Arteira, Italo Vieira.

“O ponto ideal da cerveja é quando ela está em perfeito equilíbrio de acordo com o seu estilo. Atualmente temos diversos indicadores, como o IBU, que classifica o amargor e o ABV, que determina a porcentagem de álcool. Porém, a experiência sensorial não pode ser limitada a esses indicadores, diferentes combinações na receita podem trazer boas supressas para o consumidor”. ItaloVieira (27), Mestre-Cervejeiro e um dos fundadores da Cervejaria Arteira.

 “É muito prazeroso tomar uma cerveja e falar que foi eu que fiz. A satisfação começa logo quando se idealiza a receita. Depois de pronta, pegar o resultado e ver que ficou como eu queria, é uma sensação indescritível. O que se completa ao ver a satisfação do cliente ao tomar da nossa cerveja”, declara Italo Lopes Vieira, que ainda na faculdade aprendeu o processo de fabricação da bebida. Animado com a ideia, o jovem se uniu ao seu pai, José Olívio Vieira, e juntos, eles deram origem a Cervejaria Arteira.

“Começamos a reunir os amigos para degustar e tivemos uma surpresa, pois já recebemos muitos elogios logo nas primeiras produções. Com isso, veio a ideia de comercializar, já que eles começaram a querer comprar para poder levar para casa ou mesmo presentear”, conta o rapaz graduado em Ciência e Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Com o sucesso do produto, os sabores foram se diversificando e a dupla optou pela fabricação em uma cervejaria cigana, ou seja, a receita é produzida por eles nas instalações de outra fábrica, no caso da Arteira, em Belo Horizonte-MG. Mas, embora seja confeccionada na capital mineira, o centro de distribuição fica em Ubá, cidade que inclusive foi homenageada em uma das edições que trouxe a famosa Manga Ubá como ingrediente. “Nossa intenção é valorizar a economia local. Queremos mostrar que um símbolo do município pode gerar diversos produtos e mover diferentes tipos de negócios. A Manga Ubá representa muito para a nossa cidade, e como nossas raízes estão aqui, foi um processo quase natural agregar esse produto com forte tradição à inovação do movimento cervejeiro”, comenta Italo.

No entanto, vale ressaltar que os sabores da Arteira contemplam todos os gostos. “Além da SessionIpa, que possui um amargor bem pronunciado com um aroma de manga, temos cervejas mais leves, como a Pilsen, mais encorpadas, como a Red Ale, que é mais adocicada, com um toque de caramelo, e a Brown Ale, que já é uma cerveja escura, com notas de castanha, café e chocolate”, diz. Para ele, o que não faltam são opções que satisfaçam o consumidor. “Procuramos fazer cervejas que agradem um público no geral, desde quem não entende de cerveja artesanal até os verdadeiros apreciadores desse líquido sagrado”, completa.

O criador da Pierre’sBeer, José Cláudio Pierre.

“A cerveja artesanal leva ingredientes nobres, tem um processo de produção elaborado e criativo, o que confere a ela um alto valor agregado. Devido ao tempo e aos cuidados que o cervejeiro dedica, posso dizer que é um produto especial”. José Cláudio Pierre (57). Advogado e responsável pela Pierre’sBeer

Tudo começou como um hobby. Confeccionar cerveja era apenas uma diversão para o advogado José Cláudio Pierre durante as horas vagas. Contudo, o gosto e a curiosidade pelo assunto fizeram com que ele aprofundasse seus conhecimentos. O resultado deu tão certo, que comercializar o produto aconteceu de forma natural. “Em 2017 recebi um material de divulgação do Curso de Cervejeiro Artesanal do SENAI em Visconde do Rio Branco-MG. A ideia inicial era apenas fomentar um hobby, mas acabei me envolvendo com o assunto e, desde então, passei a ler, assistir vídeos e visitar lugares que pudessem me aproximar do universo cervejeiro”, revela o profissional que, diante da procura pela Pierre’sBeer, deu início a comercialização.

O advogado explica que o processo de fabricação é desempenhado em sua própria residência, prezando sempre pelos métodos mais naturais possíveis. “Considerando todas as etapas, são necessários de 21 a 28 dias para a execução do produto. A minha cerveja é 100% artesanal e demora mais tempo porque não utilizo gás artificial, por exemplo. O método de gaseificação da Pierre’sBeer é natural”, afirma.

Segundo ele, esse processo é determinante para garantir o diferencial no sabor da bebida. “O cuidado na produção, bem como a utilização de ingredientes seletos é que farão a diferença. Além disso, algumas questões secundárias são importantes, como a utilização de uma taça, copo ou caneco que sejam apropriados para o tipo da cerveja em questão, a temperatura, a harmonização e, é claro, a ocasião e a companhia também farão com que a degustação seja mais prazerosa”, pontua. Falando em companhia, Pierre revela que a nova experiência trouxe-lhe além de grandes aprendizados, grandes amigos. “É algo extremamente prazeroso e especial fazer parte desse universo das cervejas artesanais. Aprendi muito e conheci pessoas que quero levar sempre comigo”, finaliza.

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