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Uma campanha que vai muito além da prevenção ao câncer de próstata

Publicado por: , em 05/11/2021 - Categoria: COLUNAS

Tempo de leitura: 4 minutos

Ao contrário do Outubro Rosa, que pode envolver tanto homens quanto mulheres, o Novembro Azul é direcionado exclusivamente para a saúde masculina, com maior foco no câncer de próstata — a segunda causa de morte por câncer no Brasil —, muitas vezes ignorado ou desconhecido por muitos homens que sofrem com ele.

Inclusive, por isso, as campanhas são às vezes mais voltadas à conscientização do que ao combate em si, já que a doença é silenciosa e o diagnóstico precoce pode salvar a vida de muitos homens.

Explicar as razões pelas quais o Novembro Azul é tão amplo e envolve tantas ações, é falar sobre um aspecto muito determinante para as mobilizações em torno do movimento: a masculinidade criada em meio a uma cultura que afeta a todos os homens. Sobrepor os conceitos criados desde cedo na vida dos homens é um trabalho que exige cuidado e dedicação. Assim, antes de falar sobre câncer de próstata, é necessário lidar com um verdadeiro labirinto que envolve emoções, consciência, sociedade e cobrança (inclusive a autocobrança), entre outros.

O câncer de próstata, quando descoberto em seus primeiros estágios, tem 90% de chance de cura. Entretanto, se diagnosticado de maneira tardia, isso diminui exponencialmente. Para que a doença seja confirmada é necessário fazer o exame de toque, principalmente após os 40 anos, sendo que aos 50 a chance de contrair a doença é ainda maior. Aí mora um problema que vai muito além da questão de saúde e envolve a mentalidade, as crenças e os resíduos de uma criação feita em um mundo centrado no masculino. Entre os homens há um enorme tabu em torno do exame de toque, devido à maneira como é feito. Por isso, muitos simplesmente se recusam a realizar o procedimento, impedindo um diagnóstico precoce.

Um dos principais problemas aqui é a falta de informação. Diversos homens dizem que não irão fazer o exame porque não sentem nada. Entretanto, o câncer de próstata é silencioso e demora para apresentar os primeiros sintomas, que surgem só em um estágio mais preocupante. Portanto, temos um cenário em que, por puro preconceito, muitos rapazes e senhores falecem vítimas da doença somente porque não quiseram fazer o exame quando deveriam. Isso traz à tona um problema muito maior do que a doença em si. É preciso conscientizar. Deixar claro que o procedimento não envolve orientação sexual, dor ou piadas, mas sim uma questão crucial de saúde.

Para demonstrar a força inquestionável do sexo masculino — atitude também fruto de uma cultura mundial centrada no gênero —, os homens tendem a recusar formas de cuidado vindas de outras pessoas e até mesmo o autocuidado. Muitos rapazes sabem que, ao se machucarem na infância, ou ao terem grandes decepções e ficarem tristes ou abalados, era comum ouvir a frase “Você é homem, não é?” ou até mesmo versões mais escrachadas como “Você é um homem ou um saco de batatas”? Isso cria nos meninos, desde cedo, uma noção de que por ser do gênero masculino não se deve chorar ou se deixar magoar por nada. Então, ao crescer, passam a reprimir sentimentos, sensações, e aumentar muito as dúvidas dentro de si em relação à orientação sexual, ao que é “ser homem” e como devem ser as relações entre eles e outras pessoas. Tudo por terem certeza de que não precisam se cuidar e de que isso é algo para quem “não é homem”.

Portanto, o Novembro Azul tem também como objetivo de cuidar desse aspecto. É necessário ressignificar o papel do homem na sociedade, descolá-lo de hierarquias e de necessidades de demonstração de força. Todos temos fraquezas, independentemente do gênero, e é necessário tratá-las e explorá-las para entender melhor quem somos e como lidar com nossa saúde mental.

Se você é homem, não tenha vergonha, medo ou receio de se cuidar ou de procurar ajuda. Nenhum tipo de apoio deve ser visto com constrangimento, e todos precisamos disso em alguns momentos de nossa vida. Por que não aproveitar o Novembro Azul para dar o primeiro passo em busca de uma saúde mental melhor? Homem se cuida sim!

O acompanhamento psicológico é uma ótima maneira de começar a lidar com as questões emocionais, sendo você portador de um câncer de próstata ou não. Ao conversar com um profissional, você poderá falar sem julgamentos, e ninguém além de você e ele saberão o teor do assunto. Lembre-se: não é porque você é homem que não precisa de nenhum tipo de cuidado, ok? Sua força não está no sexo masculino, e sim em quem você é!

Juliana Lopes Ibrahim

Psicóloga – CRP 04/41186

 

 

Juliana Ibrahim

Juliana Ibrahim Psicóloga e Sócia Proprietária da Clínica LaVida. Especialista em Recursos Humanos, atendimento clínico presencial e online. Terapia Cognitivo Comportamental. CRP – 04/41186