Revista Fato

menu Menu

Violência contra a mulher: o papel da psicoterapia

Publicado por: , em 04/03/2021 - Categoria: COLUNAS

Tempo de leitura: 3 minutos

Foto: Arquivo Pessoal

No dia 08 de março é celebrado anualmente o Dia Internacional da Mulher. Por isso a escolha de um tema, infelizmente, tão recorrente e que reflete diretamente na saúde mental delas.

As questões de gênero encontram-se em evidência nas principais discussões sociais, culturais e políticas. E a violência contra a mulher é pauta fixa nestes debates em razão das alarmantes estatísticas. No mundo todo, grande parte dos feminicídios (homicídios de mulheres) são cometidos por parceiros íntimos, evidenciando a alta frequência com que a violência doméstica ainda acontece, de forma inversamente proporcional às denúncias e à procura por ajuda psicológica.

O estigma social e o me do parceiro são apenas alguns dos fatores que mantém o silêncio dessas mulheres. Muitas temem a perda dos filhos, da moradia, da segurança financeira e do próprio vínculo amoroso, por mais prejudicial que esse seja.

Muitas mulheres tendem a se manter em relações ruins e destrutivas por terem aprendido com seus pais ou cuidadores que sentimentos como amor, dor e raiva estão associados. Pais que rejeitam e ao mesmo tempo promovem acolhida ensinam aos filhos que assim se estabelece o amor. Não são, necessariamente, relações violentas, mas aquelas estabelecidas por meio do amor/medo, amor/ausência, amor/chantagem emocional, amor/falta de afeto, amor/falta de respeito. Isso faz com que essa mulher tenha uma percepção muito empobrecida de si e das relações, e não perceba recursos de enfrentamento diante dessa situação. Além disso, o modelo de relações estabelecido primariamente se torna o modelo base para a formação das novas relações. É o que ela sabe lidar. É o que traz segurança. E segurança nada tem a ver com qualidade da relação. Por isso elas acabam voltando para o marido e/ou companheiro.

É difícil romper essa dinâmica. Por isso, falar a respeito e promover educação são ações importantes para o encorajamento e o reconhecimento de que isso não é normal. Amor, dor e rejeição, definitivamente, não andam juntos.

Foto: Arquivo Pessoal

É comum que as mulheres busquem apoio psicológico com sentimentos confusos. Muitas nutrem um sentimento de amor e carinho pelo parceiro agressor. Poucas chegam decididas a romper esse relacionamento. Elas se perguntam o que estão fazendo para que sejam tratadas desse jeito, se sentem culpadas. Acreditam e esperam por uma mudança das atitudes do parceiro, ou ainda atribuem a si mesmas a responsabilidade de mudar. O entorno costuma ser muito crítico e opressor, muitos julgamentos e pouco suporte. Por isso, tomar uma decisão e sustentá-la costuma ser tão difícil.

A psicoterapia, então, tem o papel de promover recursos de enfrentamento e dar significado a essas vivências para a construção de novas dinâmicas de relacionamentos. No consultório, a mulher estará amparada, num ambiente sem julgamentos. Como as agressões costumam ser recorrentes, é comum que a mulher perca a credibilidade com os filhos, a família e a sociedade. Sentir-se segura e distante do agressor é um facilitador.

Na terapia, esta mulher irá trabalhar sua autoestima e instaurar uma nova dinâmica em que aquilo que é bom não venha acompanhado daquilo que é ruim. Este processo leva tempo e requer disposição e apoio familiar. O psicólogo irá ajudá-la a compreender e enfrentar melhor todas as implicações pessoais e sociais do abuso e da agressão. A terapia entra no sentido de construir na relação paciente-terapeuta, um novo modelo base, significativo, que sirva de modelo para novas construções. E é nessa relação que ela poderá melhorar a percepção de si mesma, que é tão empobrecida, e explorar seus modelos com segurança, podendo encontrar uma forma mais funcional e saudável para os relacionamentos.

Por isso se você passa por esta situação, não deixe de procurar ajuda de um profissional. Ou, se conhece alguém que esteja precisando, incentive-a a buscar este apoio. Este passo, com certeza, será fundamental no enfrentamento desta situação. Apesar das dificuldades, marcas e perdas, reconstruir-se é possível.

 

Juliana Ibrahim

Psicóloga e Sócia Proprietária da Clínica Semper. Especialista em Recursos Humanos, atendimento clínico presencial e online. Terapia Cognitivo Comportamental. CRP - 04/41186 (32) 99938-1024